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ASSOMBRAÇÃO

DODÓ FÉLIX

 Naquela época, a maioria dos homens viajava para o Sul, em busca de trabalho no corte de cana dos engenhos. As mulheres ficavam tomando conta da casa e dos filhos; e dos animais, quando havia. Noite de sábado para domingo. No dia seguinte haveria feira em Queimadas. O céu apresentava-se repleto de nuvens, talvez prenunciando chuva. Não havia luar e as estrelas estavam todas encobertas. Escuridão total. Algumas mulheres, cujos esposos encontravam-se nos engenhos, combinaram de pernoitar na casa de D. Severina, vizinha muito bondosa, que a todas acolhia carinhosamente, além de ser exímia contadora de causos. Combinaram também que, logo de manhãzinha, com o dinheiro enviado pelos maridos, iriam dali mesmo, diretamente para a feira, onde comprariam os mantimentos necessários à manutenção da casa.  Conforme já previsto, a anfitriã recebeu as amigas com toda cortesia.

continuar…

Mulher quando se junta, conversa é o que não falta. E não seria diferente naquela noite. A conversa transcorria na maior animação. O tempo passava sem que ninguém percebesse o adiantado da hora. Dias antes, um morador da região, conhecido por Chico Corumba, havia falecido de hidropisia ou “barriga d’água”, doença bastante comum naquele tempo e que de vez em quando levava uma para cova. Entre risadas, o animado grupo comentava como teria sido, quando a alma do defunto chegou ao céu… talvez nem tivesse conseguido entrar, pois não dava para passar na porta, de tão inchado que era. Esse assunto, apesar de pavoroso, rendeu boas gargalhadas. Lá para as tantas, escutaram o latido persistente de uma matilha. Vinha dos lados da moradia do falecido. A algazarra dos cachorros aumentava sempre, como que se aproximando do local onde estavam as mulheres. Ligeiro tremor foi sentido por todas. E seus corações bateram em ritmo mais acelerado. Um suor frio começou a brilhar em suas faces pálidas. “É castigo!” – murmurou uma delas. Parecia que a cachorrada vinha seguindo alguém ou alguma coisa que se encaminhava justamente para o reduto daquelas, até minutos atrás, alegres senhoras. A latomia dos cães se fazia cada vez mais próxima. Então, a dona da casa, julgando tratar-se de algum engraçadinho com intenção de furtar, ou apenas amedrontar, procurou reagir. Correu até à camarinha e de lá retornou empunhando uma reiuna com o objetivo de afugentar o que quer que fosse. Encostou um banco de madeira na porta da frente da residência e nele subiu, de arma engatilhada. Apontou para o terreiro e disparou. Com o estampido, caiu para trás, desmaiada, sendo imediatamente amparada e socorrida pelas companheiras. Levada para a cama foi-lhe dado para cheirar essência de cânfora, ao mesmo tempo em que recebia massagens nos pulsos para que cobrasse os sentidos. Decorrido algum tempo, voltou a si, porém sem conseguir articular nenhuma palavra, os olhos esbugalhados, completamente apavorada. Somente no dia seguinte pôde recuperar-se do susto, quando então voltou a falar, e relatou o que acontecera… Contou que, ao apertar o gatilho, viu com toda nitidez, no clarão do tiro, a figura obesa de Chico Corumba, que caminhava lentamente, acompanhada de um séquito de cães.

 

Bom Jardim, 8 de abril de 2000.

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