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ASSASSINATO NA AMAZÔNIA

Dodó Félix

           André vivia chateado com a rotina tediosa que levava: o dia inteiro atrás de um birô, na repartição, até que decidiu largar tudo e viajar para a Amazônia. Na capital amazonense, por uns tempos,  revendeu relógios, perfumes e outros artigos importados. Depois entrou no ramo de confecções e passou a percorrer o Rio Solimões até Tabatinga, na fronteira com Peru e Colômbia, negociando nas cidades ribeirinhas. Achava maravilhoso viajar por aquelas paragens, apreciando as acrobacias do boto cor de rosa nas águas escuras do rio, deleitando-se com exuberância da paisagem e conhecendo outras gentes. Era abastecido por fornecedores de Manaus e, em pouco tempo, a clientela tinha aumentado significativamente, passando a fornecer mercadorias aos comerciantes da região.  Vendia a prazo e não parava de conquistar novos fregueses. Tudo ia de vento em popa, até que começou a vender seus produtos a certo Belmiro Veras. Miro da Loja, nome por que era mais conhecido esse cidadão, já tinha sido vereador na cidade e desfrutava da amizade de gente graúda, inclusive figurões da política local. Comentava-se que ele mantinha estreitas relações com elementos suspeitos de pertencer ao narcotráfico colombiano que usavam a cidade como rota de contrabando. A princípio, Miro da Loja fazia questão de saldar os compromissos rigorosamente em dia. Não obstante, nos meios comerciais, ninguém ignorava ser o referido comerciante um péssimo pagador, perito na arte de taboquear* quantos lhe dessem crédito. Desconhecendo esses pormenores, André, quando se deu conta, já lhe havia fornecido considerável quantidade de artigos. Foi então que começaram as dificuldades para o recebimento das promissórias. Foi suspenso o fornecimento de mercadorias e o lojista informado de que o resgate da dívida seria feito judicialmente. Na véspera da audiência em Juízo, como sempre fazia quando estava na cidade, André hospedou-se no Hotel Beira-Rio. À noite saiu para fazer alguns contatos comerciais, retornando ao hotel por volta das vinte e duas horas. Ao chegar, encontrou arrombada a porta do quarto e marcas de bala nas paredes, na cama e no guarda-roupa. A polícia foi chamada ao local, prometendo investigar, a fim de apurar responsabilidades. Não era difícil adivinhar o responsável por aquilo. “Mas com que objetivo? Intimidação?” – perguntava-se André. Na manhã seguinte, às nove horas, teve início a audiência, que terminou deixando a impressão de que o comerciante velhaco fora propositalmente favorecido. À saída do Fórum, ao lado de seu advogado, Miro da Loja esboçava um sorriso irônico, talvez antecipando vitória. Naquele momento, como num filme, passaram-se pela lembrança de André as cenas da noite anterior. Àquela hora, ele, André, poderia estar morto!  – pensou. E, antevendo a impossibilidade de receber os borós* que lhe eram devidos, sacou o revólver que portava consigo e disparou contra o lojista, atingindo-o mortalmente. No corre-corre, teve tempo de escapulir-se, antes que a polícia acorresse ao local. Escapou por uma rua pouco movimentada, refugiando-se num bamburral. E aguardou a chegada da noite. As horas passavam com lentidão. A espera tornava-se cada vez mais angustiosa e cheia de sobressaltos. Sabia-se caçado em todos os recantos da cidade. Ao anoitecer, esgueirou-se na escuridão, sem distanciar-se das margens do rio, sempre assediado por uma nuvem de carapanãs*. Após algum tempo, divisou uma luzinha. Era uma embarcação. Pensou em pedir ajuda. E se fosse reconhecido? Precisa arriscar. Gritou temeroso. A canoa aproximou-se da margem. Instantes depois estava instalado na montaria*, descendo o rio.  O canoeiro perguntou onde o passageiro desejava desembarcar. Trocaram algumas palavras. No escuro não podiam ver as feições um do outro. Súbito, o canoeiro indagou: “É seu André da confecção?” O interrogado estremeceu. Fora descoberto. “E o senhor, quem é?”, retrucou.  “Num tá me arrecunhecendo? É Juca Pescador, às suas ordens!” Aliviado, reconheceu a voz do Juca. Conhecera-o tempos atrás, no Bar da Nancy, onde bebericaram umas tiquiras* e conversaram um monte de coisas. Terminaram amigos, a ponto de André visitá-lo em sua residência e participar de algumas pescarias de fim de semana. Então, confiou ao pescador os acontecimentos daquele dia e a enrascada em que se havia metido. “Se vosmicê quisé, vâmo pra meu rancho, lá ninguém vai procurá sua pessoa”… O sítio onde Juca residia ficava a alguns quilômetros da cidade onde começara a via crucis de André.  Era habitação rústica, construída com toras de juçara, coberta de palha, erguida sobre palafitas, porém bastante acolhedora, sobretudo naquelas circunstâncias. A dona da casa os recebeu com afabilidade e, em pouco, a boia estava servida. O pescador recomendou à mulher que mantivesse sigilo quanto à presença do visitante na residência. No dia seguinte foi à cidade assuntar. Apurou que, após o crime, a polícia procurou por toda a parte, na tentativa de prender o assassino, tendo inclusive montado diversas barreiras como esse objetivo. O rio estava sendo vasculhado sistematicamente e as embarcações eram todas vistoriadas. André convenceu-se de que não seria fácil sair dali. De avião era impossível. Apanhá-lo-iam na hora do embarque. A única saída seria o rio. Tinha que esperar o momento certo. Decorridos alguns dias, a seu pedido, Juca Pescador contratou a lancha de alguém confiável para fazer a travessia até Manaus. Travestidos de pescadores, partiram ao anoitecer. Dispensaram bagagem para não chamar a atenção, caso fossem abordados pela polícia ou algum curioso. Levavam unicamente a roupa do corpo e petrechos de pescar: rede, tarrafa, caniço, pindá* e samburá; e, para alimentação, rações de mixira* e carimã*. O rio continuava patrulhado pela polícia e por capangas a serviço da família do comerciante morto. Todo cuidado era pouco. Atravessaram o trecho mais vigiado nos períodos noturnos, enquanto permaneciam ocultos em algum igarapé durante o dia. Embora a viagem transcorresse o tempo todo cheia de suspense, não ocorreu nenhum contratempo. Conforme o planejado, desembarcaram à noite em Manaus. Depois de providenciadas vestimentas compatíveis, apanharam um taxi e rumaram para o aeroporto. Para evitar surpresas, o dono da lancha foi até o guichê da companhia aérea comprar a passagem, enquanto o fugitivo permanecia semi-oculto, aguardando o momento de embarcar. Às cinco da manhã o avião levantou voo. Entre os passageiros, André tinha a impressão de que despertava de um pesadelo.

*)  Taboquear: enganar, lograr

      Borós: quantias (dinheiro)

      Carapanãs: mosquitos, muriçocas

      Montaria: pequena canoa escavada em tronco de árvore

      Tiquiras: aguardente de mandioca

      Pindá: para os índios, anzol

      Mixira: peixe em conserva

      Carimã: bolo de mandioca, farinha seca

 

 

Bom Jardim, 8 de maio de 1999.

 

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