Bom Jardim Notícias.com

TROVÃO AZUL

Dodó Félix

           Foi num desses acampamentos erguidos pelas construtoras durante a realização de uma obra. Numa leva de trabalhadores procedentes de Salgueiro, chegou ao acampamento localizado no município de Rodelas o cassaco Trovão Azul para trabalhar na construção da barragem de Itaparica. Era um galego sarará de quase dois metros de altura, aproximadamente 120 quilos de peso e um vozeirão que estrondava num raio de aproximadamente dois quilômetros.  Não gostava de ser contrariado e não levava desaforo para casa. Os que ousaram enfrentá-lo terminaram no hospital. E ainda mais brigão e violento se tornava quando bebia. Tinha seus pontos positivos. Um deles: era um bicho para trabalhar. Não enjeitava serviço por mais pesado que fosse. As tarefas mais difíceis sempre eram realizadas com a sua participação. Não sabia ao certo o porquê de ter recebido a alcunha de “Trovão Azul”. Supunha ter ganhado o apelido a partir de uma série que passava na televisão há muito tempo. Na verdade, jamais se preocupara com esse detalhe. As obras da barragem desenvolviam-se em ritmo normal e, no acampamento, quase todo final de semana, Trovão Azul ia aprontando das suas. Um domingo, à tardinha, enquanto ouviam pelo rádio uma partida de futebol, Trovão e Neco Risadinha jogavam cartas e ingeriam talagadas de cachaça com tira-gosto de bode assado no espeto. Lá para as tantas, Trovão Azul cismou de que estava sendo trapaceado. Então começou o rolo. O valentão deu um murro na mesa, foi pedaço de tábua para todo lado. E teve início um festival de palavrões. Neco Risadinha levou um safanão, saiu rodopiando, até cair estatelado por cima de um monte de caixas vazias. Ao levantar-se, não perdeu tempo: agarrou o espeto de assar carne e investiu contra o adversário. Trovão Azul tentou desviar-se da arma improvisada, mas acabou com uma das mãos varada pelo espeto. Soltou um urro de animal ferido, enquanto pulava segurando a mão furada, o sangue a pingar. Sem perda de tempo, Neco Risadinha tratou de dar o fora. Enfiou-se no barraco mais próximo, que pertencia a Zeca da Toyota, a quem pediu ajuda, pois tinha certeza de que Trovão Azul ia querer trucidá-lo. Mal entrou e já escutava os gritos do outro, que o procurava, brandindo uma foice. O pior era que o barraco de Zeca da Toyota não tinha saída pelos fundos. Uma única porta servia tanto para entrar como para sair. E não tinha janelas! Para fugir do perigo iminente, que atendia pelo nome de Trovão Azul, Neco Risadinha subiu nos ombros do dono do barraco. Daí alcançou o telhado e desapareceu na escuridão, pois a noite já havia chegado. Nem bem a fuga se consumara, Trovão Azul emburacou no barraco,  certo de ter encurralado e de liquidar ali mesmo o autor da espetada.

– Cadê aquele miserável? Eu sei que ele entrou aqui!

– Entrou, mas já saiu – ouviu como resposta…

Um rastro de sangue acompanhava o ferido. Em vão tentaram acalmá-lo. Mas ele só queria pôr as mãos no seu agressor para fatiá-lo a golpes de foice. Convenceram-no a ir ao hospital para tratar do ferimento. Afinal, foi só uma furada na mão, que certamente logo estaria sarada. Já acomodado na Toyota que o levaria para receber os curativos, exigiu passar antes na delegacia, pois pretendia dar parte do desafeto e colocar a polícia no seu encalço. Porém, chegando à delegacia, tomado de incontrolável fúria, começou a esbravejar, xingando os policiais, acusando-os de negligentes por não terem já caçado Neco Risadinha e o colocado atrás das grades. Foi contido à custa de socos, pontapés e bordoadas, com recomendação de que o levassem dali, antes que fosse preso e autuado por desacato à autoridade. Àquela altura, os poucos colegas que se dispuseram a acompanhá-lo haviam debandado, só restando Zeca da Toyota, totalmente arrependido de ter-se metido naquele quiproquó. A caminho do hospital, cruzaram com o automóvel do prefeito. Trovão Azul mandou parar e, dirigindo-se ao burgomestre com aquela já conhecida delicadeza, exigiu de sua excelência que pusesse ordem na cidade. Chegou mesmo a culpá-lo pela espetada que levou. Diante de tão absurdas acusações, o prefeito acabou apontando uma arma na cara daquele descontrolado, pois não estava disposto a tolerar mais nenhuma ofensa, e ordenou que sumissem imediatamente. No hospital, Trovão Azul parecia manifestado: esmurrava portas, chutava cadeiras, detratava a genitora dos médicos que o atendiam e ainda chamava as enfermeiras de prostitutas. Alguém deve ter telefonado para a delegacia, pois logo se ouviu a sirene do carro da polícia. Trovão Azul não desejava uma reprise dos maus tratos sofridos quando da visita aos policiais. Rapidamente correu para onde estava a Toyota e gritou:

– Vamos embora que os “homens” estão chegando!

Voltam ao acampamento. O veículo era uma sangueira só. O tempo todo o ferido batia com a mão no que estivesse em sua frente: parede, muro porta, cadeira, birô, inclusive o painel do veículo que o transportava. Assim, o ferimento não parava de sangrar e sujar tudo. Finalmente, mais calmo, foi conduzido ao seu barraco, onde recebeu um rápido curativo que fez o sangue estancar. No dia seguinte, às sete da manhã, lá estava ele no meio da peãozada, para trabalhar, ameaçando o encarregado da obra, o qual, para evitar mais confusão, determinou que Trovão Azul voltasse para casa e lá permanecesse até sua mão ficar completamente sarada. O seu salário seria pago integralmente. Quanto a Neco Risadinha, depois de passar para o telhado, pulou no chão. No escuro, e com a pressa que tinha de escapar, esqueceu do despenhadeiro existente próximo. De modo que despencou barranco abaixo e na queda torceu os dois tornozelos.  Com grandes dificuldades conseguiu caminhar durante umas duas horas. Não suportando mais as terríveis dores, arriou-se sobre um lajedo. De manhãzinha, arrastou-se até a estrada e pegou carona na primeira condução que apareceu. Nunca mais retornou ao acampamento.

 Bom Jardim, 19 de maio de 2000.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.