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CALABAR E O POETA. Por Assis Rodrigues

CALABAR E O POETA. Por Assis Rodrigues

Aproveitar o domingo para dedicar-me a atividades que dificilmente excedem os limites de minha casa sempre foi uma opção minha. Isto me faz compensar os dias rotineiros da semana que tentam sufocar todos os espaços do dia a dia com as obrigações que regulam minhas ações. Algumas exceções costumam modificar este meu hábito; ir à Igreja e visitar parentes ou amigos é um exemplo. Ocorre que, ao ficar em casa aos domingos, assumo uma postura de disponibilidade a também receber visitas.

Desta forma, recentemente, numa manhã de domingo, recebi em minha residência a visita do poeta Dodó Félix. Causou-me surpresa não apenas o fato da sua visita, mas sobretudo o intento do visitante. O poeta veio pessoalmente agradecer um comentário registrado por mim no “Jornal da Besta Fubana” , blog de Luiz Berto, onde ele publica suas poesias na coluna “Gorjeios”. Cumpriu seu objetivo ao expressar seus agradecimentos, mas não conteve o ímpeto que o debelava, e aos poucos, expôs ricas elucidações sobre poesia, personalidades bonjardinenses e até mesmo sobre história.

 

 

Foi justamente no campo da História que surgiu um tema que instigou-me a uma busca curiosa por mais informações sobre a matéria. Tudo começou com um cordel que o poeta me presenteou na ocasião; “Calabar, a História Verdadeira”. Utilizando a linguagem poética com seu cordel, Dodó apresenta não um Calabar hostilizado pelo estigma que lhe impôs os vencedores (a de um traidor), mas um Calabar que acima de seus projetos pessoais estava o amor pela sua terra. De traidor a herói, os versos de Dodó assim conduzem o entendimento do leitor. E aí, lá vou eu em busca de Calabar nos velhos livros de história e em sites de pesquisas na internet. Descobri um Calabar que ao se aliar aos holandeses, soube discernir entre as intenções unicamente exploradoras de Portugal e uma nova concepção de colônia que apresentava o domínio holandês. Que seus motivos para mudar de lado estavam além das recompensas oferecidas pelos holandeses. Sua expectativa maior era por um novo modelo de colônia.

 

A possessão portuguesa em Pernambuco sucumbiu à invasão holandesa com a ajuda de Calabar, exímio conhecedor da região. E Calabar estava certo. Com os holandeses veio um séquito de artistas e cientistas. Iniciaram-se os primeiros estudos sobre a fauna e a flora das Américas e instalou-se o primeiro observatório astronômico do Novo Mundo. As atividades não eram apenas exploradoras, mas também voltadas ao desenvolvimento. Agora, lá vou eu com motivos suficientes para questionar o famigerado título de “um dos primeiros traidores do Brasil”, imputado com desprezo pelos que escrevem a história, a Calabar. Se para alguns isto parece demonstrar  uma certa besteira, para mim permanece a motivação pela pesquisa que a bela obra de Dodó despertou.

 

Desta forma, um cordel que em princípio parodiava com um personagem  histórico, transforma-se num elo entre o leitor e o interesse por fatos da História. Portanto, se você algum dia receber o poeta em sua casa, prepare-se não apenas para o encantamento de seu lirismo, mas também para colher as sementes do conhecimento que são lançadas, muitas vezes desapercebidamente, enquanto discorre sobre qualquer assunto que na ocasião surja.

 

Assis Rodrigues 

 

dodo felix

 

 

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