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Vaquejada: começo, meio e fim

Vaquejada: começo, meio e fim

O STF utiliza o critério de uma crueldade intrínseca à atividade, tanto em relação aos bois quanto aos cavalos para derrubar lei que regulamenta a prática. Medida gera polêmica.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no último dia 6, derrubar lei que regulamenta a vaquejada no Ceará. O veredicto proíbe o esporte no estado e abre caminhos para a interdição no restante do País. Os 20 mil habitantes de Cachoeirinha, no Agreste de Pernambuco, entendem que a cidade, do jeito que a conhecem, corre risco de acabar. Lá, onde quase toda a população está ligada à atividade, há preocupação. A disputa é de economia e cultura contra direito animal. O STF utiliza o critério de uma crueldade intrínseca à atividade, tanto em relação aos bois quanto aos cavalos. Movimentos de defesa dos animais concordam e comemoram. 

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CAP.1
A origem

Em 1948, Cachoeirinha ainda não tinha o status de município. Não passava de uma pequena vila, encravada no Planalto da Borborema. Não havia comércio de aço, nem de couro. Não havia – como ainda não há – criação de gado para corte, nem cultivo de vegetais. A 40 quilômetros dali, João Ramos, com 16 anos, dava seus primeiros passos na vaquejada. Antes mesmo de o nome ser inventado. No meio do mato, o que ele corria era “pega de boi”.

“A gente corria de dia e dançava de noite. Pra mim, era boi, cavalo e mulher. Eu corria boi, entregava o cavalo aos meninos e ia atrás das mulheres. A gente era vaqueiro falado”, se gaba. Mas nem falando do sexo oposto, seus olhos brilham tanto como quando o assunto é vaquejada. “Sentir o povo elogiando o vaqueiro é o maior prazer que a gente tem. Você derruba o boi, o povo grita e faz a festa”, recorda.

Hoje, com 84 anos e sequelas de dois AVCs, nem boi, nem cavalo, e uma mulher só. Do alto de uma cadeira de rodas, tudo fica na lembrança. “Queria eu ter montado um cavalinho melhor, em uma pista dessas de hoje em dia, pra não deixar um boi em pé”.

CAP.2
O eixo central

Na Cachoeirinha de 1985, o comerciante Clóvis Pacheco inaugurava sua loja de aços e couros. “Eu e meu irmão somos os pioneiros. Primeiro ele, e eu, depois de três meses. Era um comércio mais parado. Mas devido à vaquejada, foi crescendo”, conta. Cresceu tanto que se tornou a principal alternativa econômica para o povo cachoeirinhense. “Aqui, é mulher, menino, todo mundo trabalhando nisso. Porque, se não fosse isso, a cidade já tinha acabado”, opina o comerciante.

Especialista na confecção de selas, João Batista dos Anjos confirma a tese. “A gente vive só disso aqui, não tem outro ramo”. Por isso, ambos tentam adequar seus produtos à nova realidade, em que o direito dos animais ameaça o esporte. Em suas selas, João usa uma camada de gel, menos agressiva ao lombo do animal. Faz uma centena delas por mês. Clóvis, por sua vez, diz que as esporas vendidas em sua loja não machucam mais o cavalo.

Os dois enxergam no esporte não crueldade, mas proteção. “O que maltrata mais é o campo seco, sem ter nada para o gado comer. Na vaquejada, tem ração, capim, água, tem tudo”, enumera o lojista.

CAP.3
Destino selado

Por volta das 5h, Jackson da Silva, 29, chega ao Haras Quentinho. É um dos tratadores que tomam conta das 45 baias da propriedade. Limpa o local, alimenta e escova o pelo dos cavalos. No fim da tarde, repete o ritual. Essa é sua rotina desde os 12 anos de idade. O haras virou sua casa. Tanto, que incorporou o nome do local ao seu. Ficou conhecido por todo o Nordeste como Jackson Quentinho.

Ele é vaqueiro profissional. Ainda adolescente, passou a montar os cavalos do haras onde trabalha. Perdeu a conta de quantos troféus já levantou. “É um bocado de título”, limita-se a dizer. Com o alto rendimento nas pistas, ele ganha o dinheiro que sustenta a esposa e a filha, de três anos – que adora o esporte. “Quando vem aqui, fica doidinha”, orgulha-se.

Por sua carreira consolidada, pagou o preço do analfabetismo. O trabalho como tratador e montador era incompatível com a vida escolar. “Não sei bater um prego em nada no mundo. A gente começou a ganhar o pão de cada dia aqui, e aí esqueci da escola. Sem a vaquejada, eu não sei fazer nada. Como vou terminar de criar minha filha? Se acabar, vou ser preso, porque não vou ter pensão para dar”.

CAP.4
Criando vidas e empregos

O dono do haras em que Jackson treina é provavelmente o maior empreendedor da cidade. E, claro, a vaquejada está entre seus negócios. Onde cactos e mandacarus são o único (quase) verde capaz de sobreviver ao clima, Moura fez nascer pasto sob aspersores.

José Adílson Silva, verdadeiro nome do empresário, cria cavalos há três décadas e enxerga progresso quanto aos maus-tratos. “Hoje, vaquejada é um negócio muito sério. O cavalo não pode ser batido de jeito nenhum, são usados artefatos que não machucam. A ração e os medicamentos dele também são fora de série.”

CAP.5
Gênero à prova

Conhecer praticantes da vaquejada é extremamente fácil em Cachoeirinha. Difícil é ver mulheres praticando o esporte. Eduarda Medeiros é exceção. Hoje com 26 anos, ela derrubou o primeiro garrote aos 11. É a única vaqueira em atividade na cidade. “Tem mais duas aqui, mas uma está grávida e a outra parou”, afirma.

Eduarda divide seu tempo entre os cuidados com a loja do pai, um dos comerciantes mais antigos da cidade, e as pistas. Nelas, no entanto, seu objetivo não é só botar o boi no chão: é também igualdade de gênero. “Eles não queriam abrir espaço para a gente.

Mas agora está uma coisa muito de família”, assegura. Contra o fim das vaquejadas, prega a regulamentação. “Deviam ser punidos o vaqueiro que maltratasse, o dono de parque que não cumprisse as exigências, mas não acabar o esporte. Regulamentando direitinho, não tinha problema”.

CAP.6
Questão de ordem

O possível fim da vaquejada mantém Cachoeirinha de sobreaviso. Com a ruína da economia local à vista, os vereadores da cidade adotaram uma postura rara na política nacional: todos esqueceram suas discordâncias e montaram uma grande frente em defesa do esporte. “Nessa hora, não tem diferença. É todo mundo unido para que nossa cultura desenvolva um papel importante na economia do país”, afirma Narciso Silva, presidente da Associação de Artesãos.

Vereador eleito pelo PCdoB para a legislatura que começa em 2017, é um dos líderes de um movimento que inclui até partidos antagônicos, como o DEM. Ele ambiciona convencer o Brasil de que a crueldade ao animal não faz mais parte da vaquejada.

Apesar de saber da dificuldade. “Foi uma determinação, na minha opinião, sem avaliação profunda. Essa decisão deveria ter sido tomada com mais base”, critica.

CAP.7
O menino e o sonho

A vida de um vaqueiro começa cedo. “Já nasce no sangue”, diz o comerciante Cláudio Jacinto, dono do parque João de Chico, em Cachoeirinha. Seu filho, João Carlos, de apenas 12 anos, é um dos grandes talentos da vaquejada despontando no município. “Com um ano e sete meses, ele já segurava na cauda do boi. E não é porque é meu filho, mas ele sabe se apresentar em um cavalo”, vangloria-se, com o orgulho saltando às vistas.

João é um iniciante, mas já tem um currículo respeitável. Conquistou cinco troféus na sua categoria e sonha com o dia em que será um vaqueiro profissional. Para isso, treina bastante. “Quase todo dia. Sempre gostei de cavalo, boi, vaquejada. Meu pai me levava muito e aí acabei me apaixonando”.

Entre o sonho e a realidade, no entanto, João vê a carreira que deseja seguir ameaçada pela decisão do STF – da qual ele discorda com firmeza. “Eu acho errado, porque é cultura em todo o Nordeste, e tem muito emprego em volta. Se acabar, vou ficar triste, porque não vai ter um esporte que eu gosto”, lamenta.
Apesar disso, não perde a fé. “Acho que não acaba, porque há uma grande mobilização das pessoas a favor”, torce.

Prólogo
A crueldade com os animais

Defensores dos animais se reúnem hoje no Marco Zero, no Centro do Recife, às 15h, em ato de apoio ao STF. No início da semana a Federação das Associações e ONGs de Defesa Animal de Pernambuco entregou um documento em favor à decisão ao secretário de Governo, André Campos. Ganhar o apoio do Governo do Estado é importante para a causa.

Isso porque os governadores são alguns dos poucos que podem tentar reverter o processo, de acordo com a presidente da Comissão Nacional de Direito Ambiental da OAB, Marina Gadelha. “Ele pode propor uma ação direta de inconstitucionalidade. Poderia trazer uma modificação na vaquejada para ser votada pelo STF, por exemplo”, explicou. Segundo a advogada, o Supremo votou considerando “critérios de intrínseca crueldade à atividade”. Esses, envolvendo, inclusive, os cavalos.

Ou seja, não seria impossível que outros esportes como rodeio e hipismo poderiam se tornar alvo do judiciário. “Pernambuco não está livre da proibição, mas tem a vantagem de não ter nenhuma lei que regule a vaquejada. Paraíba e Bahia têm e, como a do Ceará, podem vê-la ser derrubada.”

Para a veterinária de proteção e defesa animal de Jaboatão, Ana Cláudia Araújo, a decisão é um avanço. “Os animais podem sofrer graves lesões. Romper órgãos com a queda, por exemplo, mesmo que haja uma alta camada de areia”, criticou. “Todos defensores dos animais vemos que está errado um animal ser usado para a diversão e vaidade do ser humano.”

A professora de medicina veterinária da UFRPE Roseana Diniz concorda. “O rabo do boi é uma extensão da coluna e puxar, naquela velocidade, pode aleijá-lo. Nunca será um esporte sem sofrimento animal. É um jogo desleal, injusto visto por ele”, avaliou.

“Além disso, a carga de estresse que ele passa ali é incomensurável. Uma descarga hormonal incrível acontece, porque ele entende que será predado naquele momento.

Depois daquilo, nunca mais será o mesmo. É como uma pessoa que é assaltada e passa por risco de morte. Cria um estresse pós-traumático”, explicou a especialista em comportamento animal.”

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