Bom Jardim Notícias.com

Chefe de clã elege 5 prefeitos da mesma família em AL

Chefe de clã elege 5 prefeitos da mesma família em AL

CORURIPE (AL) – As eleições municipais deste ano ratificaram em Alagoas o poderio do grupo Beltrão, de maior ascensão política no Estado, liderado com mãos de ferro pelo deputado estadual licenciado João Beltrão (PSD), pai do ministro do Turismo, Marx Beltrão, recentemente nomeado pelo presidente Michel Temer (PMDB). Com atuação no litoral sul alagoano, o velho cacique, mesmo internado num hospital com problemas decorrentes pelo descontrole do diabetes, elegeu cinco prefeitos da sua família, entre os quais a filha Jeannyne Beltrão, de apenas 32 anos, em Jequiá da Praia, a 78 km de Maceió.

Em Coruripe, a 91 km da capital, município onde começou a vida pública e governou por três vezes, elegendo depois o filho Marx em duas eleições seguidas, João Beltrão impôs a maior derrota ao grupo adversário entre todos os redutos da sua base: elegeu o irmão Joaquim Beltrão com quase 70% dos votos válidos, obtendo 19.710 votos, enquanto os adversários Zé Enéas, do PPS, e Edinho de Hélio, do PP, tiveram, respectivamente, 5.822 votos (20,60%) 2.732 votos (9,67%). Por tabela, ainda elegeu o vereador Guto Beltrão, do PDT.

Coruripe é a galinha dos ovos dourados da família. Distante apenas 85 km da capital, o município, que o velho cacique governou por três mandatos, é base petrolífera da Petrobras, gera royalties que engordam os cofres municipais e tem uma população em torno de 55 mil habitantes. Visitada por turistas do mundo inteiro, um dos seus símbolos é o Farol do Pontal, construído em 1948 como centro de sinalização náutica. Está presente no logotipo da Prefeitura, no brasão do time de futebol e, desde 2006, no brasão da cidade.

“Quem deu o pontapé do desenvolvimento de Cururipe foi o deputado João Beltrão quando prefeito e seu filho Marx imprimiu uma grande marca de gestor como prefeito”, orgulha-se o presidente da Câmara, Mesaque Padilha (PMDB), segundo mais votado, com 1.282 votos. Mas na passagem pelo poder municipal, Marx passou a responder processo pela acusação de fraudar a comprovação de quitação previdenciária ao Ministério da Previdência para tirar o município da inadimplência e assim receber transferências voluntárias e financiamentos de instituições federais.

A fama de grupo poderoso e influente está na boca do povo. “Os Beltrão são boca quente”, diz Zenilda Alves dos Santos, vendedora ambulante, que se vira para tirar o sustento da família vendendo pastel, castanha e outros quitutes na beira de um canal na entrada da cidade. Ela votou no prefeito Joaquim Beltrão, irmão de João, líder do grupo. “Os que entraram na disputa contra o prefeito já sabiam de antemão que sofreriam uma grande derrota”, afirmou, referindo-se à surra imposta à oposição. O prefeito foi reeleito por 69,74% dos que foram às urnas.

Em Penedo, maior colégio eleitoral da região, João reelegeu o sobrinho Marcius Beltrão, do PDT, por uma diferença de 517 votos ante Ivana Toledo, do PP, com quem polarizou. Dois outros candidatos que entraram na disputa, Dr. Raimundo, do PHS, e Zé Alves, do PTdoB), tiveram pouco mais de mil votos, juntos. Às margens do Rio São Francisco, Penedo é umas das mais belas e antigas cidades do Brasil. Além da beleza do rio, o que chama atenção em Penedo é seu Centro Histórico, que reúne 13 igrejas, 10 capelas e inúmeros sobrados.

Entre eles, destaca-se a Casa do Penedo, uma instituição que visa preservar a memória da região, o Memorial Raymundo Marinho e o Teatro Sete de Setembro, construções erguidas ao mesmo tempo em que o município foi fundado.O prefeito Marcius Beltrão, 46 anos, só não conseguiu eleger a maioria na Câmara de Vereadores, podendo, provavelmente, vir a conviver com um adversário no comando da Casa na sua segunda gestão.

Dos 15 parlamentares, apenas seis são do seu grupo. Mais votado, com 2.009 votos, o radialista João Lucas (PRTB) faz vigilante oposição ancorando o programa de maior audiência na rádio Grande Rio FM. “Não faço oposição radical”, diz o comunicador, para quem a força dos Beltrão se explica pelos serviços prestados e a estrutura do grupo. “O prefeito não fez uma boa gestão, mas o ministro Marx trouxe aqui o governador Renan Filho (PMDB), que em apenas 20 dias calçou e pavimentou muitas ruas, o que contribuiu para a reviravolta”, diz João Lucas.

Para o vereador Ernande Pinheiro (PR), quarto mais votado, com 1.036 votos, os Beltrão são o que ele classifica de “profissionais da política”. Embora eleito no campo da oposição para o seu primeiro mandato, o republicano já faz prognósticos  de que o ministro Marx Beltrão terá um lugar de destaque a ocupar na política alagoana. “A família quer ele como senador, mas o governador Renan Filho tem como meta reeleger o pai. Sendo assim, Marx acabará sendo vice na chapa de reeleição do governador em 2018”, prevê o parlamentar.

Os tentáculos da família foram estendidos a outros municípios. Em 2012, o grupo só havia perdido em Piaçabuçu, que retomou nas eleições de 2 de outubro passado, elegendo Djalma Beltrão (PRB), primo do velho donatário do feudo e tio do ministro do Turismo. Com 49,57% dos votos válidos, Djalma derrotou a tucana Doutora Lúcia, atual vice-prefeita, apoiada pelo prefeito Dalmo Moreira (PSB), já reeleito, por uma frente de 656 votos, não tão elástica como se previa. “O grupo se perpetua no poder pelo poderio econômico, mas tive o prazer de impor uma derrota a eles na eleição passada”, afirmou Dalmo.

De nome e exploração indígena, Piaçabuçu, a 141 km de Maceió, forma um conjunto de nove ilhas de beleza sem igual, tendo  4 km de praias banhadas pelo rio São Francisco. Com ecossistema preservado, é um dos maiores polos pesqueiros da região, com destaque para camarão criado em cativeiro, sendo ainda  área de desova de tartarugas. No seu território as águas do Velho Chico desaguam no mar. Na rota do Descobrimento, a cidade foi visitada no ano de 1859 pelo imperador Dom Pedro II, que, inclusive, participou de festas religiosas antes de seguir viagem rumo à Bahia.

Mais novo município criado em Alagoas, com 21 anos de emancipação, Jequiá da Praia, com 12 mil habitantes, é a parte do reduto eleitoral dos Beltrão que ainda tem praias selvagens. Sua natureza guarda ecossistemas diversificados. No povoado de Barra de Jequiá, por exemplo, pode-se assistir ao encontro da Lagoa de Jequiá com o oceano Atlântico ou os manguezais. Na povoação de Lagoa Azeda está uma lagoa que empresta seu nome à região, com águas vigorosas e que dificultam a prática de esportes náuticos.

As praias de Pituba e Jacarecica do Sul são praticamente selvagens, apresentando cenários ainda pouco explorados pelo homem. Ali, João Beltrão escolheu a filha Jeannyne (PRB) para entrar na disputa e, eleita, dar continuidade ao trabalho do prefeito Marcelo Beltrão, primo e sobrinho do pai-deputado. “Entrar na política foi uma decisão pessoal. Iniciei a vida pública aos 24 anos como secretária de Educação de Coruripe, em 2009”, diz Jeannyne, para a quem a eleição de cinco parentes próximos numa mesma região é o reconhecimento do trabalho prestado pelo grupo ao povo.

“Na campanha apresentamos a melhor proposta e por isso chegamos lá”, acrescenta. Segundo ela, o ministro e irmão Marx Beltrão pode ajudar muito à região. “Ele nos ajudará a alavancar os investimentos turísticos em Alagoas.  Somos privilegiados por nossas belezas naturais e, no cenário atual, contamos com contrapartida, não só no turismo, mas em todas as áreas que possamos angariar recursos”, afirmou.

Por fim, em Feliz Deserto, a 120 km de Maceió, a força de João Beltrão fez chegar ao poder a sua cunhada Rosiana Beltrão (PMDB) com 57% dos votos válidos – 1.625 votos. A partir de janeiro, ela passa a suceder o prefeito Maykon Beltrão, também filho de João. Geraldo Simões, do DEM, perdeu por uma diferença de 424 votos. Feliz Deserto é marcada por uma tragédia ocorrida em abril de 2005. A cidade foi castigada por um temporal que durou dois dias, alagando completamente toda a área central.

A chuva destruiu aproximadamente 300 casas de taipa, deixando desabrigados 1,5 mil pessoas. A Prefeitura, através de doações, conseguiu abrigar provisoriamente a população em diversos pontos da cidade. A reconstrução começou em dezembro de 2005 e, em julho de 2006, foram entregues 185 casas a população.

Secretário de Administração do município, Gutemberg Breda diz que o monopólio da família na região se deve principalmente ao modelo de gestão. “Coruripe e Jequiá da Praia alcançaram a melhor nota no Ideb”, destaca ele, acrescentando que Feliz Deserto, apesar de ter elevado potencial turístico, não conseguiu ainda atrair investimentos hoteleiros. “O município vive dependente do FPM, em média R$ 380 mil, que dá apenas para cobrir os encargos e pagar pessoal”, afirmou, ressaltando que o objetivo da prefeita eleita é investir na infraestrutura para o turismo. “Aqui, as pessoas dependem da Prefeitura e de uma indústria de coco”, afirmou.

Além da reeleição de Joaquim Beltrão (PMDB), em Coruripe, e Március Beltrão, em Penedo, e a eleição de Jeannyne Beltrão, Rosiana Beltrão e Djalma Beltrão, respectivamente, em Jequiá da Praia, Feliz Deserto e Piaçabuçu, o grupo Beltrão, agora capitaneado pelo ministro Marx, emplacou aliados de peso em cidades do interior, a exemplo de Júlio Cezar (PSB – Palmeira dos Índios), Rogério Teófilo (PSDB – Arapiraca), Padre Eraldo (PSD – Delmiro Gouveia) e Cacau (PSD – Marechal Deodoro).

 João Beltrão, uma lenda na política alagoana

O lado agressivo do velho cacique é conhecido em Alagoas e já destacado pela mídia nacional. Há pouco, ele foi condenado por crime de calúnia e difamação. Segundo a acusação, durante o comício do então candidato a prefeito do município de Campestre, Luciano Rufino, proferiu palavras caluniosas, difamatórias e injuriosas. Após análise da gravação do discurso pela Polícia Federal, o MPE denunciou João Beltrão e pediu sua condenação.

Durante o discurso, o deputado atribuiu crimes de roubo e homicídio ao opositor político, chamou-o de ladrão, bandido, canalha e safado. Caluniar, difamar e injuriar alguém com finalidade de propaganda eleitoral estão previstos no Código Eleitoral e, segundo a acusação, todos os crimes foram cometidos com causa de aumento de pena por terem ocorrido em comício, na presença de várias pessoas.

Numa ampla reportagem, com repercussão nacional, o jornal Folha de São Paulo traçou o perfil do líder da família. Com o título “O método João Beltrão”, a reportagem destacou que ele responde a dois processos em que já  virou réu, acusado de mandante de assassinatos. Segundo a acusação, os crimes teriam sido praticados por funcionários do deputado. O advogado José Fragoso Cavalcanti diz que o deputado nega ter qualquer participação nos crimes.

As duas ações penais estão em fase de instrução, na qual as testemunhas serão ouvidas. Os processos tramitam no Tribunal de Justiça de Alagoas por causa do foro privilegiado do deputado, e ainda não há prazo para o julgamento. Em um dos processos, João Beltrão é acusado de ser o mandante da morte do empresário Pedro Daniel de Oliveira Lins, o Pedrinho Arapiraca, morto a tiros na cidade de Taguatinga, no Tocantins, em 2001. Segundo a acusação, Beltrão devia R$ 54 mil pela compra de cabeças de gado a Pedrinho Arapiraca. Um mês antes de morrer, a vítima tinha ajuizado uma ação na Justiça para cobrar a dívida.

No outro processo, Beltrão é acusado de ser o mandante do assassinato de José Gonçalves da Silva Filho, o cabo Gonçalves, em 1996. Ex-policial militar, Gonçalves teria descumprido a ordem de Beltrão de matar um adversário político e, por isso, teria sido morto. O deputado chegou a ser preso em 2008 acusado de participação no crime, junto com os também deputados na época Antônio Albuquerque e Cícero Ferro.

A prisão foi decretada no âmbito Operação Resurgere, da Polícia Federal, na qual os deputados eram acusados pelos crimes de pistolagem e formação de quadrilha. Todos negam as acusações. Beltrão ainda é alvo de um inquérito que apura a morte do bancário Dimas Holanda, em 1997. Nesse caso, contudo, o deputado não virou réu.

Em maio de 2006, revoltado com a insegurança já crescente, o deputado fez um discurso em uma solenidade ocorrida em Coruripe, e que foi transmitido por uma emissora de rádio, em que defendeu o uso do “método João Beltrão” para conter a violência. Como se manifestou o ex-prefeito do município?

– Se o governo não manda a polícia prender os ladrões, vou usar o método João Beltrão que vocês conhecem.

E para que não houvesse dúvidas quanto ao método proposto, o parlamentar foi além:

– Remédio de ladrão é espingarda.

http://www.blogdomagno.com.br/

Compartilhar

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta