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Entenda o mito da dominância canina e como seu cão realmente te vê!

Entenda o mito da dominância canina e como seu cão realmente te vê!

Segundo Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, “ser líder é como ser uma dama; se você tem que provar que é, então você não é”. Essa frase costuma ser utilizada em reuniões de motivação no universo corporativo, mas bem pode ser aplicada quando o tema é adestramento canino. Isso porque, não raramente,  os proprietários desses animais ouvem de certos adestradores outra frase típica: “você tem que mostrar pra ele QUEM é que manda”. E, geralmente, para essa vertente de pensamento, como se faz isso? PUNINDO o animal cada vez que ele manifesta algum comportamento indesejado.

Essa ideia geralmente está associada ao conceito de “Alpha”. Basicamente, o cão enxergaria sua família humana da mesma forma como o seu ancestral selvagem enxerga a matilha onde está inserido, onde há uma HIERARQUIA em vigor, tendo o Alpha no topo e os demais membros sendo DOMINADOS pelo Alpha. Mas será que é mesmo dessa forma que funciona uma matilha? A resposta para esta pergunta é: depende de qual tipo de matilha você está falando.

Tanto o conceito de Alpha quanto as ideias derivadas deste conceito, posteriormente aplicadas ao adestramento canino, vem de um estudo com lobos desenvolvido por R. Schenkel, publicado em 1947 sob o título “Expressions Studies in Wolves”. O objetivo era a observação do comportamento social de lobos de matilhas diferentes confinados no Basel Zoological Garden, entre 1934 e 1942.  As interpretações das manifestações ritualísticas observadas nesses indivíduos deram origem à ideia de que há uma disputa pela dominância da matilha, e que o vencedor desta disputa conquista o título de “Alpha”. A pergunta que fica é: será que os dados obtidos a partir de uma pequena amostragem de indivíduos sem relação de parentesco convivendo em cativeiro podem efetivamente descrever o comportamento social da mesma espécie na natureza?

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Para responder a esta pergunta, o biólogo especialista em lobos L.David Mech desenvolveu outra pesquisa, onde seguiu e observou matilhas na Ilha Ellesmere, no norte do Canadá, durante nada menos que TREZE VERÕES – bem mais do que os oito anos de duração da pesquisa anterior. E chegou a resultados TÃO diferentes, que ele mesmo não somente retificou as informações de seu primeiro livro “The Wolf: Ecology and Behavior of an Endangered Species” – o qual endossava o conceito prévio de Alpha – como solicitou às editoras que parassem de publicá-lo sob a seguinte alegação: “Apesar da maior parte das informações contidas no livro estarem corretas, muitas delas são antiquadas”.

A primeira conclusão importante do estudo de Mech diz respeito ao suposto ritual de dominância tido até então como obrigatório na ascensão do Alpha. Segundo Mech, não é que esses rituais sejam diferentes. Eles são simplesmente INEXISTENTES. “A maior parte dos lobos que lideram uma matilha chegaram a esse status simplesmente por acasalar e ter filhotes, que se tornam então os membros desta matilha. Em outras palavras eles são meramente procriadores ou pais e é assim que os chamamos hoje em dia”. Ou seja, diferentemente do conceito anterior, o Alpha não é o dominador da matilha; mas sim o líder que conquistou este posto pelo mero fato de ser o progenitor, o ancestral comum da matilha. Esta seria, então, composta pelo casal Alpha e sua prole. Qualquer semelhança com uma família NÃO é mera coincidência.

Outro ponto crucial no conceito de Alpha diz respeito a COMO o casal Alpha desempenha essa função, que, conforme observado na pesquisa de Mech, NADA TEM A VER COM DOMINÂNCIA FÍSICA.  “A matilha é uma família [de novo, FAMÍLIA], com os pais adultos GUIANDO AS ATIVIDADES DO GRUPO em um SISTEMA DE DIVISÃO DE TRABALHO no qual a fêmea [Alpha] primariamente lida com o cuidado e proteção da prole e o macho [Alpha} cuida do provimento de recursos.

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A partir deste entendimento – e de outros estudos realizados especificamente com cães – surgiram então as técnicas de adestramento positivo de cães. O que seria isso? Trocando em miúdos, consiste em recompensar positivamente o animal diante de comportamentos desejados – diferentemente do anterior, já ultrapassado, que tem seu foco na punição ao mau comportamento. Dessa forma, você faz com que seu cão entenda duas coisas: 1) que você é o provedor dos recursos e 2) que o acesso dele aos melhores recursos (que você controla, a saber, atenção, entretenimento, petiscos) está diretamente associado ao bom comportamento. Ou seja, você é o Alpha.

 

Estamos dizendo aqui que o método anterior NÃO FUNCIONA? NÃO! Mas a que preço? Na opinião da adestradora Daniela Wahlers, isso pode custar a confiança do seu animal. “Ao punir ou “corrigir” um cão fisicamente por ter feito algo errado (…) estamos coagindo o cão a ficar com medo de uma punição e assim é lógico que ele deixará um comportamento indesejado de lado, mas as custas da relação entre cão e dono ir pras ‘cucuias’ (…) usar força física de qualquer tipo rebaixa o seu ‘status’ na matilha, já que na “natureza” apenas cães inseguros de sua posição o fazemSe você controlar recursos (…) por definição você é o “alfa”.

Mais uma vez, como dissemos em nosso texto sobre criação indoor de felinos, nosso intuito – e o da ciência – não é ditar regras sobre como você deve criar seu animal. O que estamos dizendo aqui apenas é que se você usa de métodos coativos embasado no conceito de Alpha da década de 40, você precisa saber que este conceito foi revisto e redefinido. Ou seja, se você ainda usa de força física e punições e intimida o seu animal para mostrar a ele “quem é que manda”, VOCÊ NÃO É UM ALPHA CONCEITUAL. Com base nesse conhecimento, você é quem escolhe que tipo de Alpha você deseja ser para o seu cão: um chefe que conquista seu posicionamento num grupo artificialmente montado na base da força, ou um pai – ou mãe – de uma família naturalmente formada por vínculos de afeto.

Fontes: davemech / wolf / goldadestramento
Imagens: Reprodução/veterinariadelbosque / dogpsychology101 / meucachorroonline
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