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Dono de avião que levava Chapecoense, piloto queria transportar Seleção Brasileira

Dono de avião que levava Chapecoense, piloto queria transportar Seleção Brasileira

Miguel Quiroga, piloto do avião que caiu nesta terça-feira levando jornalistas, jogadores e dirigentes da Chapecoense, era também um dos dois sócios da microcompanhia aérea Lamia, que tinha apenas 15 funcionários – entre parentes e amigos. Depois do acidente, restaram só 8.

Depois de tentativas frustradas de entrar no circuito de voos comerciais para África e Europa, sua empresa se especializou em transportar times de futebol em voos fretados – entre os clientes estão seleções (Bolívia, Argentina e Colômbia) e times sul-americanos (como o Nacional da Colômbia, o Olímpia, do Paraguai, e a própria Chapecoense, que já havia usado os serviços da Lamia em outubro).

“Há dois meses, ele me procurou pedindo para eu intermediar um contato com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), porque ele tinha interesse em transportar mais times, inclusive a Seleção Brasileira”, contou Osvaldo Quiroga, primo do piloto, em entrevista por telefone à BBC Brasil.

Quiroga foi procurado porque tinha contato com ex-jogadores da seleção, mas conta que a negociação não chegou a se concretizar. “Infelizmente não deu tempo.”

À reportagem, Gustavo Vargas, diretor-geral da companhia e amigo de Miguel Quiroga, confirmou o foco em times de futebol e disse que o avião que levava a equipe brasileira para Medellín, na Colômbia, estava decorado com escudos e flâmulas da Chapecoense.

“Para cada time que levávamos, personalizávamos o avião. Colocávamos o escudo e símbolos para tornar a viagem mais agradável.”

Ele nega boatos de que a empresa praticasse preços baixos para ganhar competitividade no mercado de voos fretados.

“Nosso serviço é um pouco mais caro, mas é mais rápido”, diz Vargas. “Há muitas razões (para os times voarem com a Lamia). A equipe pode ir e voltar no mesmo dia, no horário que quiser. Podemos chegar a locais onde não há voos regulares. Podemos fazer quantas escalas forem necessárias.”

Família de aviadores

Antes de comprar a companhia aérea, Micky foi piloto da força aérea bolivianaImage copyrightARQUIVO PESSOAL
Image captionAntes de comprar a companhia aérea, Micky foi piloto da força aérea boliviana

Aos 36 anos, Miguel Quiroga, conhecido pela família como Micky, havia tido a terceira filha há três meses. Vivia com a mulher e os filhos (além do bebê, um menino de 13 anos e uma de 9) em uma casa de classe média no lado acreano da fronteira com a Bolívia.

“Somos uma familia grande, meu avô vinha da indústria aeronáutica, era encarregado da Lloyd Aereo Boliviano (companhia aérea extinta em 2007)”, conta o primo.

“O pai dele, Eduardo, também foi piloto e sofreu um acidente que o impossibilitou de continuar voando. Mudou-se para o Brasil para se recuperar.”

Segundo o familiar, o interesse de Micky pela aviação foi fruto das conversas familiares. “Ele estudou em colégio militar na Bolivia, fez faculdade na Força Aérea Boliviana, onde virou piloto e adquiriu o grau de capitão”, relata.

Antes de se tornar sócio da Lamia, o piloto havia montado uma escola de aviação, onde era instrutor. “Era a paixão dele a vida inteira. Quando surgiu a oportunidade de comprar uma empresa aérea, ele aproveitou para adquiri-la.”

Visto como herói e vilão, Quiroga é alvo de especulações nas redes sociais. Durante a entrevista, o primo pede respeito ao luto dos familiares.

“Falam que ele demorou para informar sobre falta de combustível para não receber multa. Ora, nenhum piloto vai expor a própria vida, nem a das pessoas que está carregando. Não faria sentido colocar a própria vida em risco, ele havia acabado de ser pai.”

“Os boatos ferem a família”, diz Osvaldo Quiroga.

“Um amigo de rede social chamou meu primo de mafioso. Ele nem o conhece. O conteúdo das caixas-pretas nem foi divulgado.”

Avião

Homenagem em ChapecóImage copyrightLEONARDO MUNOZ
Image captionTorcedores e moradores fizeram uma vigília na Arena Condá, a casa da Chapecoense na cidade de pouco mais de 200 mil habitantes

Em 2014, a empresa foi comprada de um empresário venezuelano por Micky e um amigo, o também piloto Marco Rocha Venegas, e conseguiu licença para operar na Bolívia em julho do ano passado.

A empresa original é cercada de polêmicas. Foi criada na Venezuela em 2010 pelo empresário e suposto lobista Ricardo Albacete Vidal, com parte do financiamento vindo de empresas chinesas.

Em cinco anos, a Lamia Venezuela tentou iniciar suas operações em dois Estados do país, sempre sem sucesso.

Tanto Vidal quando o diretor Gustavo Vargas afirmam que hoje não há qualquer vínculo com a antiga Lamia venezuelana.

“Temos capital 100% boliviano”, diz Vidal.

O avião Avro RJ85, que caiu perto de Medellin e deixou 71 mortos e seis feridos, era o único em funcionamento da companhia.

“Temos outros dois, que estão em manutenção e nunca foram usados”, disse o diretor à reportagem.

À BBC Brasil, o dirigente diz não ter ideia sobre as causas do acidente e afirma que empresa tomava todos os cuidados.

“Já havíamos feito um voo de Santa Cruz de la Sierra até Medellin sem problemas. Nunca tivemos nenhum acidente.”

Miguel Quiroga e com a famíliaImage copyrightARQUIVO PESSOAL
Image captionVisto como herói e vilão, piloto virou alvo de especulações nas redes sociais

Combustível?

A análise das caixas pretas do voo ainda não foi divulgada por autoridades colombianas. Falta de combustível e pane elétrica são os principais pontos de especulação, a partir de áudios entre o piloto e a torre de controle do aeroporto de Medellin.

A autonomia do quadrimotor Avro RJ-85 era de cerca de 3 mil quilômetros, praticamente a mesma distância entre as cidades de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Para especialistas, é pouco usual que autoridades permitam um voo de uma aeronave cujo autonomia é equivalente à distância percorrida entre os pontos de partida e de chegada.

http://www.bbc.com/

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