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Saem ‘família’ e ‘Deus’, entram ‘reforma’ e ‘estabilidade’: os termos mais ditos pelos deputados na votação de Temer

Saem ‘família’ e ‘Deus’, entram ‘reforma’ e ‘estabilidade’: os termos mais ditos pelos deputados na votação de Temer

Os deputados federais evitaram menções religiosas e a familiares em seus votos na sessão que salvou o presidente Michel Temer nesta semana. É o contrário do que ocorreu na votação que autorizou o impeachment de Dilma Rousseff, em abril de 2016. Falas sobre a situação econômica do país e a corrupção prevaleceram desta vez.

Em 17 de abril de 2016, quando a Câmara dos Deputados autorizou o prosseguimento do processo de impeachment de Dilma, a palavra “Deus” foi mencionada mais de 70 vezes pelos deputados. O termo “família” aparece 125 vezes nas notas taquigráficas da ocasião.

Já nesta quarta-feira, quando a Câmara decidiu pelo arquivamento do caso contra Temer, estes termos praticamente sumiram das falas dos deputados. “Deus” só foi citado oito vezes. E “família” surge apenas em 23 trechos no registro da sessão.

Ao todo, 263 deputados votaram a favor do presidente, e 227 contra. Para que ele pudesse ser processado criminalmente, seria necessário o aval de 342 deputados (dois terços da Câmara). Graças ao resultado favorável, a acusação de corrupção passiva contra Temer pela Procuradoria-Geral da República não será enviada para apreciação do Supremo Tribunal Federal.

Montagem com palavras mais citadas nas duas ocasições
Direito de imagemMONTAGEM
Image captionMontagem com palavras mais citadas na Câmara durante sessões do impeachment de Dilma, à esquerda, e de análise do relatório contra Temer, à direita

Durante a votação, os termos que mais apareceram foram aqueles que fazem menção às acusações de corrupção contra o peemedebista e à situação econômica do país. Explica-se: de um lado, a oposição tentava arranhar ainda mais a imagem de Temer e de seus aliados. De outro, a base aliada se mostrou afinada no discurso de “salvação nacional”.

A palavra “denúncia” aparece 152 vezes nas notas da sessão de quarta-feira, junto com “investigação” (97 vezes) e “corrupção” (75 vezes). O discurso econômico também é muito presente. “Reforma” e “reformas” foram mencionadas 99 vezes, assim como “estabilidade” (62 vezes) e “economia” (57 vezes).

Um discurso comum entre os deputados que votaram a favor de Temer: o afastamento do presidente criaria, disseram eles, ainda mais instabilidade política no país, prejudicando a retomada da economia.

“Investigar é preciso, mas não é urgente. Urgente é unir trabalhadores e empreendedores do Brasil para desenvolver o país”, declarou o deputado Júlio Lopes (PP-RJ) em seu voto. Ele se refere ao fato de que a investigação contra Temer voltará a tramitar na Justiça comum quando o peemedebista deixar a Presidência da República.

Arthur Oliveira Maia (PPS-BA) foi na mesma linha: “Eu voto a favor da recuperação da economia. Eu voto a favor de milhões de desempregados que estão vendo, neste momento de recuperação econômica, a sua salvação. Eu voto a favor do relatório do deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG, favorável a Temer)”.

Júlio Lopes (PP-RJ)Direito de imagemAGÊNCIA BRASIL
Image captionJúlio Lopes (PP-RJ) ressumiu discurso comum entre apoiadores de Temer: “investigar não é urgente”

O próprio Temer ecoou a tese dos aliados em uma declaração à imprensa, logo depois do fim da votação na Câmara.

“Estamos retirando o Brasil da mais grave crise econômica de nossa história. Embora seja repetitivo, eu digo que é urgente colocar o país nos trilhos do crescimento, da geração de empregos, da modernização e da justiça social”, disse.

Na lista de palavras das votações que selaram o destino de Dilma e de Temer, o único ponto em comum são as menções constantes às investigações, geralmente por deputados de oposição. A palavra “corrupção” aparece 75 vezes nas notas taquigráficas de Temer, e 86 nas de Dilma.

“As digitais de cada um dos senhores ficarão na história. Ou você defende as investigações, o trabalho da Justiça, a Lava Jato, ou você se alia a esse governo, que é um governo que tira direitos e está mergulhado em um mar de corrupção”, afirmou o deputado de oposição Aliel Machado (Rede-PR).

“Golpe” caiu em desuso

Ao longo do processo que terminou com o impeachment de Dilma, o PT e outros partidos de esquerda argumentaram que a ex-presidente foi vítima de um “golpe”. Mas, a julgar pelo registro da sessão de quarta-feira, a tese do golpe já não tem mais tanta força para a oposição.

O termo “golpe” apareceu 141 vezes nas falas dos deputados nas 331 páginas de notas taquigráficas que registraram tudo o que foi dito durante a sessão do impeachment de Dilma. Já na votação da denúncia contra Temer, a palavra só foi dita 10 vezes.

Deputados da oposição em votação da denúnciaDireito de imagemEPA
Image captionOposição a Temer citou o termo “golpe” dez vezes durante votação na Câmara

A ausência de manifestações populares significativas durante a votação da quarta-feira também não passou despercebida aos deputados.

As “ruas” foram mencionadas 74 vezes na votação do impeachment de Dilma, mas só 12 vezes durante a votação que salvou o governo Temer.

Disputa de narrativa

Geralmente, a distribuição de cargos e verbas por si só não é suficiente para vencer votações importantes no Congresso. É preciso também criar uma justificativa plausível que deputados e senadores possam repetir para seus eleitores.

“No fim das contas, o governo foi bem-sucedido em duas frentes: tanto na negociação fisiológica de cargos, emendas e benesses, quanto na criação de uma narrativa convincente. A fisiologia é fundamental, mas precisa estar calcada num discurso”, diz o analista político Richard Back, da corretora XP Investimentos.

“E de certa forma há dados para sustentar esse discurso. O desemprego finalmente parou de crescer, os juros estão recuando e o PIB (a soma de tudo que o país produz) não deve despencar em 2017”, diz Back.

“Houve quem votasse com Temer com medo de que a crise política retroalimentasse a crise econômica. Era uma preocupação real para alguns deputados. Como se dissessem: ‘podemos até não ser a solução, mas pelo menos não estamos aumentando o problema'”, diz o analista, que acompanhou a votação no plenário da Câmara.

Nova denúncia?

Na quarta-feira, a Câmara determinou que a ação contra Temer só voltará a ser analisada pela Justiça quando o peemedebista deixar de ser presidente.

Mas a agonia do governo pode se repetir nos próximos dias. É possível que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresente nova denúncia contra o peemedebista, desta vez pelos crimes de obstrução à Justiça e formação de quadrilha. Neste caso, todo o rito no Congresso se repetiria.

http://www.bbc.com

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