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Depressão e esporte: você trabalha isso com seus alunos?

Depressão e esporte: você trabalha isso com seus alunos?

Abri o jornal pela manhã e na leitura do caderno de esportes me deparei com a notícia sobre o jogador Nilmar, atacante do Santos Futebol Clube, afastado da equipe para se dedicar ao tratamento de depressão, doença silenciosa e ainda desconhecida e desacreditada, e não totalmente aceita no mundo do esporte de alto rendimento.

Recordei que Nilmar teve a sua depressão detectada em agosto de 2017 após a volta da viagem de Belo Horizonte, onde o Santos enfrentou o Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro. A história conta que a esposa do jogador entrou em contato com o clube dizendo que o marido estava com medo de ir à rua e não queria sair do quarto. Foi assim que o departamento médico aparentemente percebeu a gravidade da situação.

Recordando os 15 anos de carreira, Nilmar teve um histórico de lesões graves. Possivelmente dessa vez, segundo o departamento médico do Santos, uma paralisia facial e uma conjuntivite teriam sido o estopim para o desencadeamento de quadro depressivo oculto.

O surgimento de distúrbios emocionais em atletas é algo tão frequente quanto lesões físicas em campo. Segundo pesquisa feita em 2015 pelo Sindicato Internacional de Futebolistas Profissionais, o FIFPro, 38% dos jogadores de futebol apresentam sintomas de depressão e/ou ansiedade. A pesquisa da FIFPro apresenta outro número preocupante sobre a saúde emocional dos jogadores que já “penduraram as chuteiras”. Apesar dos casos de depressão cairem de 38% para 35%, a quantidade de jogadores que apresentam sintomas de estresse e ansiedade sobe de 15% para 18% entre atletas aposentados.

Em uma busca pela internet localizamos no próprio elenco do Santos a história do jogador Thiago Ribeiro, que também apresentou o quadro depressivo em 2014. Buscando um pouco mais a fundo, encontramos o mesmo quadro apresentado por Ronaldo Fenômeno, entre 1999 e 2002. Todos nós acompanhamos a sua luta para voltar ao futebol, sem imaginar que, além das dores no joelho, ele convivia com a depressão. Outro atleta que a depressão pegou foi Pedrinho, ex-jogador do Vasco, do Palmeiras e da seleção brasileira, que havia passado por três cirurgias sequenciais no joelho. Foram quase três anos no departamento médico e no auge da doença, tomava doze comprimidos por dia. Por desconhecimento de causa e para piorar a situação, haviam cobranças e pressão de algumas pessoas que sugeriam que ele não jogava por falta de vontade.

O que poucos sabem é que um jogador em depressão apresenta desempenho abaixo da expectativa, diminuição da dedicação aos treinos, aumento da freqüência de lesões, isolamento em relação aos companheiros e mudança de comportamento. Para o FIFPro são as lesões graves, que causam longos períodos de inatividade, o principal gatilho da depressão em atletas. Uma das hipóteses para justificar o quadro seria o fato dos jogadores estarem acostumados a praticar exercícios todos os dias, com uma produção de serotonina, dopamina e noradrenalina extremamente alta. Essas substâncias são responsáveis pela sensação de relaxamento e bem-estar. Na falta de atividade física, durante o período de reabilitação de uma lesão a produção cairia e abriria a porta para os casos de depressão.

Um outro aspecto importante a ser analisado é o da transição de carreira. A maioria dos jogadores não se preparam para o término. Muitos insistem e arrastam a carreira, sem saber a hora de parar e aposentar e as histórias de final de carreira melancólicas são várias. E mesmo sendo comum, como já provado pela pesquisa do FIFPro, a depressão ainda é um tabu no meio futebolístico.

Por falta de diagnóstico adequado ou por vergonha de compartilhar essa informação devido ao estigma social que acompanha os transtornos mentais e emocionais, muitos atletas se perdem. A depressão não é estar na “fossa” ou com “baixo astral” passageiro. Esse estigma está relacionado com o preconceito e desinformação. Ainda hoje muitos acreditam que pessoas deprimidas são fracas, omissas, preguiçosas, sem força de vontade. Estima-se que cerca de 16% da população mundial já sofreu de depressão ao menos uma vez na vida. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 300 milhões de pessoas no mundo são afetadas pela depressão.

Ainda segundo a OMS, até 2020, a depressão será a segunda causa de morte mundial por doença, ficando apenas atrás das doenças cardíacas. Estes dados são estarrecedores e, nas atuais circunstâncias em que vivemos, precisamos falar sobre a depressão.

A depressão é um distúrbio afetivo que acompanha o ser humano ao longo de sua história e atinge a humanidade desde suas origens. Envolve tristeza profunda, desânimo, desespero, com uma duração semanas, meses ou até anos. A depressão não escolhe classe social, religião, cultura ou etnia para se manifestar.

Alguns fatores podem influenciar diretamente no desencadeamento da depressão. Alguns traços da personalidade da pessoa, como baixa autoestima, autocrítica e pessimismo; traumas ou estresses, como abuso sexual, morte, relacionamentos e situações difíceis; trauma de infância; parentes com histórico de depressão, transtorno bipolar, alcoolismo ou suicídio sexualidade não apoiada pelos parentes ou amigos; histórico de outros distúrbios da saúde mental, como transtornos de ansiedade, transtornos alimentares ou estresse pós-traumático; uso abusivo de álcool ou drogas ilícitas; doenças crônicas, como câncer, AVC ou doença cardíaca; uso de determinados medicamentos, como alguns de hipertensivos ou comprimidos para dormir. As causas possíveis incluem uma combinação de origens biológicas, psicológicas e sociais de angústia.

Existem por um outro lado evidências de que o exercício regular pode ajudar a aliviar o baixo nível de humor – de sentimentos de estresse e ansiedade até episódios depressivos completos. Pesquisas atuais demonstram que a maneira mais indicada para cuidar da depressão é associar o tratamento psiquiátrico medicamentoso, a psicoterapia e a atividade física.

Basicamente a medicação modifica a captação de serotonina e de outras substâncias pelo cérebro que diminuem os sintomas da doença, a psicoterapia ajuda nas mudanças e na aprendizagem de comportamentos e a atividade física à longo prazo auxilia na liberação de hormônios relacionados ao prazer e ao bem estar, entre eles, a endorfina, a serotonina, a dopamina, além da diminuição do cortisol.

Michael W. Otto, PhD professor de psicologia na Universidade de Boston pesquisou sobre estratégias para melhorar os tratamentos de distúrbios de ansiedade, humor e uso de substâncias. Com Jasper A. J. Smits, PhD, professor associado de psicologia na Southern Methodist University apresentaram suas conclusões em Baltimore, durante a conferência anual da Associação Americana de Transtornos de Ansiedade. Suas descobertas foram baseadas na análise de estudos populacionais, clínicos e meta-analíticos sobre a relação entre os exercícios e a saúde mental e sobre a redução da sensação de ansiedade por meio da prática de exercícios. A análise dos pesquisadores demonstrou a eficácia dos programas de exercício na redução da depressão e da ansiedade.

Para os autores os Indivíduos que se exercitaram apresentaram menos sintomas de ansiedade e depressão, além de níveis menores de estresse e raiva. No entender dos mesmos a prática de exercícios parece atuar em sistemas neurotransmissores específicos do cérebro, assim como os antidepressivos, e isso tem ajudado os pacientes que sofrem de depressão a restabelecer comportamentos positivos. Para pacientes que sofrem de ansiedade, os exercícios reduzem seus medos do medo e de sensações corporais relacionadas ao medo, como coração acelerado e respiração ofegante. Com apenas 25 minutos de exercício, constataram os pesquisadores, o humor melhora e o estresse é reduzido.

O professor de Educação Física que atua em instituições, academias ou grupos esportivos eventualmente poderá se deparar com pessoas que sofrem de depressão. Identificado o quadro, seu papel poderá ser o de auxiliar na manutenção da adesão e aderência do exercício físico, bem como no desenvolvimento da autoestima e autoimagem, favorecendo a reabilitação dessas pessoas através da atividade física.

Referências
Otto, M.; Smits, J. Proven Strategies for Overcoming Depression and Enhancing Well-Being
First Edition Oxford University Press, September 2009.
Prof. Esp. Roberto Trindade– Formado em Turismo, Psicologia e Educação Física. Pós-Graduado em Psicologia do Esporte e Esportes de Aventura. Email: trindade_scuba@hotmail.com

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