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Prefeito de Garanhuns tenta impedir peça com Jesus travesti no FIG

Prefeito de Garanhuns tenta impedir peça com Jesus travesti no FIG
Atriz transexual Renata Carvalho interpreta Jesus em peça censurada

Atriz transexual Renata Carvalho interpreta Jesus em peça censuradaFoto: André Penner / Divulgação

Um dia após a divulgação da programação do Festival de Inverno de Garanhuns (que nesta 28ª edição tem como tema aliberdade), o prefeito da cidade, Izaías Régis, procurou o secretário de estadual de Cultura, Marcelino Granja, para pedir que retirasse da programação a peça teatral “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”.

Diante da afirmação de que não haveria modificações, Régis declarou que não irá ceder o Centro Cultural de Garanhuns para a apresentação do espetáculo. Em seguida, foi à imprensa para defender sua posição, alegando que Garanhuns “é uma cidade cristã” e que a peça seria ofensiva a grupos religiosos. A confusão alcançou as redes sociais, dividindo opiniões.

A peça é estrelada pela atriz transexual Renata Carvalho, que faz uma releitura de Jesus como se ele vivesse nos dias atuais como uma travesti. “A ideia é mostrar que Jesus pode estar presente entre os marginalizados. O texto é respeitoso e em nenhum momento vilipendia a liturgia cristã. Partir para a censura prévia é um ato de misoginia e transfobia“, critica Rodrigo Dourado, que é professor de Teatro na UFPE e diretor do grupo Teatro de Fronteira (que também vai levar “Luzir é Negro”, um espetáculo sobre racismo, para o FIG). Rodrigo organizou um abaixo-assinado virtual no site Avaaz, em defesa da peça de Renata Carvalho. 

O espetáculo estreou em 2016 e vem enfrentando oposição em várias cidades por onde passou. Em Porto Alegre e em Salvador, por exemplo, foi alvo de ações na Justiça pedindo (sem sucesso) o seu cancelamento. Em Jundiaí (SP), a apresentação foi suspensa por ordem judicial. Já no Rio de Janeiro, o prefeito e pastor Marcelo Crivella cancelou uma apresentação, mandando fechar o espaço teatral onde iria acontecer.

“Antes do advento de Crivella, a gente podia citar o Rio como um farol para o restante do Brasil. Não podemos deixar que Pernambuco passe por uma vergonha semelhante, esquecendo nossa tradição libertária”, acrescentou Dourado. No último dia 03 de junho, a peça esteve em cartaz no festival de teatro Trema!, no Recife. Não enfrentou problema algum, e foi um sucesso de público e crítica.

“O FIG é um espaço de liberdade e esperamos que essa polêmica não seja um estopim para a intolerância“, disse Marcelino Granja, enfatizando que a programação será mantida. Ele explicou à Folha de Pernambuco que a curadoria do festival é feita de forma pública e que é preciso respeitar a Constituição Federal, que preconiza a liberdade de pensamento e de expressão artística.

“Somos contra qualquer censura, ainda mais quando ficou muito claro que o prefeito não viu a peça e sequer prestou atenção ao fato de que a apresentação se daria num espaço restrito, com poucos lugares e às 23h, para um público adulto”, criticou.

O tiro do prefeito de Garanhuns pode ter saído pela culatra: vários espaços da cidade agora disputam entre si para receber a peça. A polêmica parece ter fortalecido a curiosidade do público e a visibilidade da causa trans.

Procurado pela reportagem através de sua assessoria de imprensa, Izaías Régis se pronunciou por meio de nota oficial: “Não temos nenhum preconceito relacionado à opção sexual (sic) de quem quer que seja. Mas, não podemos comungar com manifestações que ferem símbolos sagrados da fé cristã. Chegou a nosso conhecimento que o espetáculo deve ser apresentado no Sesc Garanhuns. Neste caso, não nos compete. Mas no Centro Cultural do município não haverá a disponibilidade”, diz o texto.

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