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Sangue em banheiros indica participação de família em morte

Sangue em banheiros indica participação de família em morte

Um relacionamento conturbado de 40 anos que chegou ao fim. Assim, a Polícia Civil de Pernambuco abre o leque de possibilidades para justificar o assassinato brutal do médico e bacharel em Direito Denirson Paes da Silva, de 54 anos. No condomínio de luxo onde a família morava, no Residencial Torquato Castro, em Aldeia, Camaragibe, a perícia encontrou vestígios de sangue nos banheiros, indícios que sobreviveram a exaustivas limpezas com uso de químicos pesados, e até mesmo à nova pintura. Acima da cacimba onde os restos mortais foram localizados, mais evidências da barbárie: alterações recentes não disfarçaram o local onde a carbonização foi feita na tentativa de se livrar do corpo. Em dois dias, com a conclusão da perícia médico-legal, os restos mortais recolhidos serão encaminhados para o laboratório onde vão passar por exames de DNA. Num prazo de dez dias, haverá a identificação da vítima.

Cacimba onde os restos mortais do cardiologista Denirson Paes foi encontrado. Foto: Polícia Civil/Divulgação

Cacimba onde os restos mortais do cardiologista foram encontrados. Foto: PCPE/Divulgação

Casado com a farmacêutica Jussara Paes, 54, o cardiologista era pai de dois filhos. O engenheiro civil Danilo Paes, 23, filho mais velho do casal, foi autuado em flagrante – junto à mãe – por ocultação de cadáver ainda na noite da quarta. Liberados em audiência de custódia pelo flagrante, os dois tiveram a prisão temporária decretada no início da tarde desta quinta-feira pelo homicídio qualificado. O documento foi assinado pela juíza Marília Falcone, da 1ª Vara Criminal de Camaragibe. A mulher já foi encaminhada para a Colônia Penal Feminina do Recife e o jovem ao Centro de Observação Criminológica e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel). O advogado de defesa da família, Alexandre Oliveira, adiantou que entrará com pedido de habeas corpus para libertar mãe e filho.  Nesta noite, ele vai se reunir com os parentes da farmacêutica, que é natural da Bahia, e já chegaram ao Recife.

O filho caçula, segundo a polícia, colaborou com as investigações, se mostrou proativo nas buscas para desvendar o caso, não costuma ficar em casa, dispensou a defesa do advogado e, assim, não é considerado suspeito. “Ele foi o único que se predispôs a prestar declarações, recusou assessoria jurídica, falou do relacionamento conturbado dos pais e que o pai estava prestes a sair da casa”, detalhou o chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle.

Se as causas específicas do homicídio qualificado seguem obscuras, a polícia aponta vestígios do envolvimento dos familiares no crime. Ainda nesta quinta-feira, peritos voltaram ao residencial em busca de novos indícios. Foram coletados mais restos mortais, e os laudos deverão comprovar a dinâmica do crime. Com o uso de luminol, a perícia identificou sangue no banheiro de um quiosque próximo à cacimba onde o corpo de Denirson foi encontrado, no banheiro social da residência e no banheiro do quarto do primeiro andar da casa, rotineiramente utilizado por Danilo Paes.

De acordo com Kherle, em dois dias, a perícia médico-legal será concluída e, em seguida, os restos mortais serão encaminhados ao laboratório para passar por exames de DNA que deverão identificar a vítima. Em dez dias, o laudo deverá ficar pronto. Também em dez dias, deve sair o resultado das perícias de local de crime.

Ao longo da carreira, o cardiologista atuou no Hospital Getúlio Vargas, no Hospital das Clínicas, no Hospital do Exército e também no Procape, referência em assuntos do coração. Ele era formado em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco e estudou Direito na Uninassau.

CRONOLOGIA DO CRIME
Mulher e um dos dois filhos do casal foram autuados em flagrante por ocultação de cadáver e liberados pela Justiça. Foto: Facebook/Reprodução

Mulher e um dos dois filhos do casal foram autuados em flagrante por ocultação de cadáver e liberados pela Justiça. Nesta tarde, foi decretada a prisão temporária deles. Foto: Facebook/Reprodução

Mesmo com o relacionamento conturbado, Denirson e Jussara Paes estavam com viagem marcada para Miami, nos Estados Unidos, e, no dia 30 de maio, o médico cancelou o passeio. No mesmo dia, ligou para o consultório particular onde atendia e avisou que manteria os atendimentos marcados para o período de folga. Essa foi a última vez que o cardiologista manteve contato com alguém. No dia seguinte, segundo a esposa, ele desapareceu. A viagem estava marcada para o dia 2 de junho com retorno ao Brasil no dia 12.

Ao prestar depoimento, os funcionários da residência adiantaram que foram dispensados do trabalho nos dias 30 e 31 de maio. A empregada doméstica só retornou à casa no dia 01 e o caseiro no dia 04. Eles relataram que tiveram que limpar várias vezes a residência, principalmente a área próxima à cacimba. No dia 12, o dia em que o casal deveria retornar de viagem, o caseiro estranhou o forte odor que saía do reservatório. Então, a farmacêutica pediu para que ele cimentasse a tampa do poço pois tinha jogado um gato morto no local.

Somente no dia 20 de junho, Jussara Paes registra a queixa do desaparecimento na Delegacia de Camaragibe. Durante o período, amigos, clínicas e laboratórios para os quais o médico prestava serviço utilizaram as redes sociais em busca de informações sobre o paradeiro de Denirson Paes. No boletim de ocorrência, a esposa da vítima chegou a dizer que ele pode ter viajado para os Estados Unidos sem ela e, em seguida, partido para a Rússia para ver os jogos da Copa do Mundo. Ainda no depoimento, ela corroborou que o marido foi visto pela última vez no dia 31 de maio. A polícia fez a verificação das câmeras de segurança do Residencial Torquato Castro e, em momento algum, o médico deixou o condomínio.

DESCONFIANÇA DA POLÍCIA

A demora para procurar a polícia e a fragilidade no depoimento da farmacêutica Jussara Paes intrigaram a delegada Carmém Lúcia, da Delegacia de Camaragibe, que investiga o caso. Nessa terça (03), ela conseguiu da Justiça um mandado de busca e apreensão na residência ainda focada no desaparecimento. Ao chegar no residencial, os policiais foram recebidos por Danilo e Jussara. “O filho mais velho ficou na sala e não se envolveu. A mãe acompanhou a gente nas buscas e ficou tentando evitar que nos aproximássemos da área da cacimba. Nesta hora, o filho mais novo estava trabalhando”, lembrou a investigadora.

O perito criminal Fernando Benevides, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), desconfiou do comportamento da mulher e notou que a cacimba tinha passado por alterações recentes e estava com dois vasos de planta por cima. Ele quebrou a cobertura de cimento e descobriu que ela escondia o lugar onde algo havia sido queimado. Ao retirar a tampa, com o uso de equipamentos especiais, ele pensou ter visto um fêmur dentro do poço, que tem 25 metros. “Não dava para ver direito, mas havia desconfiança”, continuou a delegada. A partir desse momento, o Corpo de Bombeiros foi acionado para fazer a verificação dentro do reservatório.

“Quando foi feita a busca, encontramos restos mortais humanos. Agora, precisamos dos exames laboratoriais para confirmar se pertencem ao médico”, complementou Joselito Kehrle. Também foi encontrada uma maleta com documentos do especialista, incluindo passaporte.

Ainda não é possível dizer qual foi a dinâmica do crime, mas, para a polícia, possivelmente o corpo foi esquartejado no banheiro. A perícia achou um rastro que pode ter sido o corpo. “Está comprovado que há sangue humano dentro da cena do crime e dentro da residência, o que indica que um familiar pode ter feito ação”, complementou Fernando Benevides. Para o chefe da Polícia Civil de Pernambuco, uma reprodução simulada poderá revelar como tudo aconteceu.

CRIME PREMEDITADO?
Denirson Paes. Foto: Reprodução/Facebook

Especialista em cardiologia, Denirson Paes atuou no Procape, Hospital Getúlio Vargas, Hospital do Exército e no Hospital das Clínicas. Foto: Facebook/Reprodução

Ainda é preliminar cravar se o assassinato do médico Denirson Paes, que foi morto, esquartejado, queimado e jogado na cacimba, foi premeditado. “Não temos como dizer isso. A certeza que temos é o envolvimento de mãe e filho na ocultação”, adiantou o chefe da Polícia Civil. Ao remover os restos mortais, nessa quarta e quinta-feira, os bombeiros encontraram uma pastilha de cloro no fundo da cacimba, cloro líquido, areia e metralhas. “É uma nítida demonstração de que tentaram evitar que bactérias atuassem e gases saíssem. O que temos pode sugerir, mas não comprovar a premeditação”, salientou.

A informação foi endossada pelo perito Fernando Benevides. “Todo o ambiente da casa passou por uma limpeza profunda com a utilização de químicas pesadas, até mesmo soda cáustica, o que dificultou a coleta do material. No entanto, o luminol reagiu e encontramos as manchas de sangue”, adiantou.

Durante o depoimento, o filho caçula do casal deixou claro que o casamento dos pais já tinha acabado. “Ele conta que o relacionamento era conturbado e o pai (o médico) pediu o fim do casamento. Tinha dito até mesmo que sairia de casa”, contou a delegada Carmém Lúcia.

Até o corpo ser encontrado, mãe e filho negaram o crime. Encaminhados para a Delegacia de Camaragibe ainda na noite da quarta, disseram que só vão se pronunciar em juízo. “Não houve depoimento, ela e o filho tomaram medicação. Ela tomou três comprimidos e o rapaz tomou um. A delegada ainda pediu para que não fosse ministrado medicamento tentando fazer com que ele falasse, mas não teve jeito. Eles se recusaram. O que é contraditório partindo do princípio que a família busca solucionar o caso”, ponderou o chefe da Polícia Civil, Joselito Kehrle.

ENTENDA A CRONOLOGIA DO CRIME

30/05: ULTIMO SINAL DE VIDA DO MÉDICO

  • O médico cardiologista Denirson Paes da Silva, 54 anos, cancela, com a Agência de Viagens, localizada no aeroporto, a viagem que a família faria para Miami, nos Estados Unidos. Eles viajariam no dia 2 de junho e retornariam no dia 12.
  • Denirson Paes também liga para a clínica particular em que atendia e pede para manter a agenda de atendimentos
  • A família dá folga de dois dias à empregada e de seis dias ao caseiro da residência, em Aldeia

31/05: DESAPARECIDO

  • Data do efetivo desaparecimento, segundo queixa da esposa de Denirson, Jussara Rodrigues da Silva Paes

12/06: CHEIRO ESTRANHO NA CASA

  • Jussara pede que o funcionário da casa coloque um tampão de concreto na cacimba da área de lazer da residência. O profissional percebe a presença de moscas e odor forte e questiona Jussara, que justifica o cheiro pelo fato de ter jogado um gato no local

20/06: REGISTRADA A QUEIXA DO DESAPARECIMENTO

  • Jussara registra o desaparecimento de Denirson na Delegacia de Camaragibe e alega que ele teria viajado para os Estados Unidos

03/07: MANDADO DE BUSCA E APREENSÃO É EXPEDIDO

  • Justiça concede à polícia um mandado de busca e apreensão na casa

04/07: RESTOS MORTAIS SÃO ENCONTRADOS E FAMILIARES SÃO AUTUADOS

  • Delegada Carmen Lúcia cumpre mandado na casa e encontra restos mortais dentro da cacimba, na área de lazer da casa
  • Jussara e o filho, Danilo Paes são autuados por ocultação de cadáver e levados para delegacia de Camaragibe

05/07: PRISÃO TEMPORÁRIA É DECRETADA

  • Após audiência de custódia, o juiz Otávio Pimentel concede aos suspeitos a possibilidade de responder ao processo em liberdade. Minutos depois, a juíza Maurília Falcone determina a prisão temporária e Jussara segue para a Colônia Penal Feminina e Daniel para o Cotel

https://www.op9.com.br/pe/noticias/sangue-em-banheiros-indica-participacao-de-familia-em-morte-de-medico/

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