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O GALO ( Dodó Félix )

Não me responsabilizo pela veracidade dos fatos aqui narrados, mesmo porque, na época em que eles aconteceram, eu residia noutra cidade; porém o meu irmão José, que a tudo presenciou, foi quem me passou todas as informações. Contou-me que, há alguns anos, na casa de nossos pais existiu um galináceo que terminou ficando famoso pela valentia demonstrada enquanto viveu. Segundo meu irmão, era um galo vermelho, enorme, pescoço dourado e grosso, e uma crista que dava gosto de ver. Seu canto podia ser ouvido a quilômetros de distância. Nem todo cachorro bravo impunha tanto respeito quanto o galo “Lampião” – era esse o nome do bicho. Pouca gente tinha chegado a nossa porta sem antes receber umas boas esporadas da ave truculenta e assustadora. Não havia homem barbado, mulher destemida, moça corajosa, rapaz valente nem menino desavisado que não fosse pra espora… Isso, sem falar nas pessoas da casa, pois ninguém escapava às investidas do dito cujo. Basta dizer que a nossa irmã ainda hoje guarda nas canelas as marcas da violência do malvado. E criança pequena, nem pensar! Era se esquecer, sair ao terreiro, o pau cantava… Cada dia que passava, “Lampião” ia fazendo novas vítimas. Não poupava gatos, cachorros, bodes, porcos e toda sorte de bichos que fosse encontrando. Raposa nenhuma se atrevia a aparecer em nosso terreiro. Gambá, nem em sonho! Os poucos que ousaram botar o focinho, no território da fera foram estraçalhados na mesma hora. A fama desse valentão de penas foi longe! Veio até gente de Recife para vê-lo de perto. Dava gosto possuir um bicho tão valente! Um dia, meu pai e meu irmão foram à feira e de lá trouxeram um bezerrote com o objetivo de engordá-lo uns dois anos, quando então o venderiam e, com o dinheiro apurado, fariam uma reforma na velha residência, que há tempos estava necessitando de um conserto. Retornaram exaustos, porém alegres, puxando o bovino pela corda, certos de que fizeram ótimo negócio na compra do animal. Com a chegada do quadrúpede, o galo mostrou-se enfurecido. Começou a bater em tudo que aparecesse em sua frente, tendo inclusive derrubado, de uma peitada só, um coqueiro anão, já frutificando, existente no quintal da casa. E não se aquietou mais. Passou a noite toda a emitir um canto estranho, atrapalhando o sono da vizinhança. No dia seguinte, a primeira coisa que fez foi partir feito um louco para cima do pobre bezerro, as esporas afiadas como punhais, deixando-o todo furado, igual tábua de pirulito, o sangue a escorrer em bicas. O coitado, não resistindo ao violento ataque, veio a perecer logo em seguida, baldados todos os esforços no intuito de salvá-lo. Diante de tais ocorrências, ao meu pai só restou a alternativa de sacrificar o galo assassino, pois o mesmo havia passado dos limites. Era o cúmulo. Onde já se viu tamanho disparate?! Assim sendo, foi o valentão abatido com quatro tiros de rifle e várias cacetadas para acabar de morrer. Não foi possível aproveitar o couro da vítima nem a carne do matador: o couro, de tão estragado, devido às inúmeras feridas causadas pelos afiados esporões; a carne, bastante prejudicada em consequência dos balaços e das cacetadas, ficou a manhã inteira cozinhando em tacho de cobre, com lenha de angico, porém continuava cada vez mais dura, além de exalar um odor horrível. Deste modo, foram ambos enterrados em cova bem funda lá na divisa da propriedade. Mas, só gostaria de lembrar mais uma vez que não testemunhei nenhum desses acontecimentos; pois, como já disse, tudo me foi relatado por José, meu irmão caçula.  Bom Jardim, 24 de março de 1999.

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1 Comentário

  1. Teresa Monteiro
    1 de agosto de 2011 às 16:03 Responder & darr;

    Como diz a piada, “vou acreditar em consideração”…Brincadeira!

  2. Bráulio de Castro
    1 de agosto de 2011 às 18:09 Responder & darr;

    Dodó tá querendo assumir o lugar de Zé Gomes.

  3. Teresa Monteiro
    2 de agosto de 2011 às 12:00 Responder & darr;

    A propósito do galo – agora é sério – até já comentei via email com Dodó. A revista Época desta semana, nas páginas 16/17, refere um estudo publicado pela revista Nature sobre o fóssil de um Archaeopteryx encontrado na China, e que põe em dúvida a teoria de que esse bicho, (com penas e do tamanho de uma galinha), seria a primeira ave a evoluir dos dinossauros, ou seria ela própria, um pequeno dinossauro…??? Vale conferir!
    Agora é brincadeira: será que não foi um descendente de dinossauro que foi parar no quintal da família do nosso prezado Dodó, disfarçado de galo?
    Se nós temos até jacaré no rio…???
    Brincadeira, brincadeira! Abraço Dodó!

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