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Veja o que Museu Nacional guardava quando pegou fogo

Veja o que Museu Nacional guardava quando pegou fogo
Sala do Antigo Egito contendo múmias e sarcófagos

Sala do Antigo Egito contendo múmias e sarcófagosFoto: Museu Nacional da UFRJ/Divulgação

Uma tragédia anunciada destruiu parte da história brasileira junto com o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. O fogo começou algumas horas após a saída dos últimos visitantes do domingo, 2 de setembro.Também em um dia 2 de setembro, porém de 1822, Maria Leopoldina, então princesa regente do Brasil por conta de uma ausência de Dom Pedro, assinou no prédio histórico de 200 anos o decreto da Independência, declarando o País separado de Portugal. O Grito do Ipiranga foi proclamado cinco dias depois às margens do rio em São Paulo.

Mais antigo do Brasil e com acervo com mais de 20 milhões de peçasmuseu passava por dificuldades financeiras geradas pelo corte em seu orçamento. A historiadora Heloísa Starling lembrou que o início dele foi feito a partir da coleção da imperatriz Leopoldina. “Ela tinha um compromisso de ilustrar e fazer circular um conhecimento melhor sobre o Brasil. E vai fazer isso por meio da botânica e da zoologia. Ela mesma ia buscar as espécies”, conta.

A vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo, afirmou que as coleções de invertebrados, que estavam em um anexo, foram preservadas, assim como a coleção de tipos de malacologia, área que estuda os moluscos. “A gente arrombou uma porta e conseguiu tirar algumas coisas lá de dentro”. No mais, ela disse acreditar que praticamente todo o acervo foi destruído.

Pterossauro (Thalasso) - Réplica em vidaPterossauro (Thalasso) – Réplica em vida – Crédito: Divulgação/Acervo do Museu Nacional do RJ

No local, eram guardados itens como o meteorito do Bendegó, o maior já encontrado no país, e uma coleção de múmias egípcias –inclusive o crânio de Luzia, a mulher mais antiga achada no Brasil. Além de coleções de vasos gregos e etruscos, e o primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil.

As exposições do Museu Nacional eram organizadas em seções: Evolução da Vida (a história da Terra e dos primeiros seres que a povoaram), Nos Passos da Humanidade (a evolução do Homem), Culturas Mediterrâneas (arte e artefatos greco-romanos), Egito AntigoArqueologia Pré-colombiana (arte e artefatos dos povos que habitavam as Américas), Arqueologia Brasileira (onde se destaca Luzias), Etnologia Indígena Brasileira (a diversidade, a arte e o engenho dos índios brasileiros) e Culturas do Pacífico, além das diversas seções dedicadas à Zoologia.

Afrescos de Pompeia
Pinturas que foram presenteadas ao museu em meados do século 19 pelo rei das Duas Sicílias, Dom Fernando 2º, irmão da imperatriz Teresa Cristina e cunhado de Dom Pedro 2º. Sua proveniência não está 100% estabelecida, mas tudo indica que teriam vindo do templo da deusa Ísis na cidade romana de Pompeia, destruída por uma erupção vulcânica no século 1º a.C.

Afrescos de Pompéia do século I d.C.Afrescos de Pompéia do século I d.C. – Crédito: Museu Nacional da UFRJ/Divulgação

Luzia, o esqueleto humano mais antigo do Brasil
Um dos mais importantes itens no Museu Nacional era um fóssil humano, achado em uma gruta de Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974. Batizado de Luzia, fazia parte da coleção de antropologia. Trata-se do fóssil de uma mulher que morreu entre 20 e 25 anos.

esqueleto humano era o mais antigo do Brasil e um dos mais antigos de todo o continente americano, com 12 mil anos de idade, tinha feições peculiares, semelhantes às dos aborígines australianos atuais e diversas dos indígenas modernos. Há crânios similares em coleções da USP e da Dinamarca, mas nenhum tão antigo quanto o dela.

Museu Nacional abrigava Luzia, esqueleto mais antigo já encontrado no Brasil

Museu Nacional abrigava Luzia, esqueleto mais antigo já encontrado no Brasil – Crédito: Divulgação

Meteorito do Bendegó
Outra preciosidade era o maior meteorito já encontrado no País, chamado de Bendegó e pesa 5,36 toneladas. A pedra é de uma região do sistema solar entre os planetas Marte e Júpiter e tem mais de 4 bilhões de anos. O meteorito foi achado em 1784, no Sertão da Bahia, na localidade de Monte Santo.

Quando foi encontrado era o segundo maior do mundo. A pedra integra a coleção do Museu Nacional desde 1888 e adornava a entrada do museu, sendo a primeira peça do acervo a ser vista pelos visitantes. Por ser resistente a altas temperaturas, o meteorito em si não parece ter sido afetado.

O maior meteorito já encontrado no País, chamado de Bendegó e pesa 5,36 toneladas – Crédito: Guilherme Braga Alves/Facebook

Múmia do Atacama
Cadáver mumificado de um homem que morreu há cerca de 4.000 anos no deserto do Atacama (Chile). O clima desértico, associado a grandes concentrações de sal gema encontradas nos solos do Atacama, faz com que essa região seja uma das mais áridas do mundo, o que favorece a preservação de matérias orgânicas. Como conseqüência, muitos corpos pré-históricos têm sido achados em suas areias em boas condições de conservação.

É o caso do corpo deste indivíduo, encontrado em uma sepultura em Chiu-Chiu, próximo à cidade de Calama, a mais de dois mil metros de altitude. Sua sepultura, tipicamente atacamenha, foi utilizada entre 4.700 e 3.400 anos atrás, período em que as culturas do deserto começaram suas atividades caravaneiras. No frio do deserto era comum dormir sentado, com a cabeça apoiada nos joelhos, possivelmente um modo de se aquecer melhor sob os ponchos e gorros feitos de lã de lhama. Essa era também a posição em que os mortos eram enterrados, envolvidos em roupas e cobertas, junto com seus pertences.

Neste caso, restou apenas o típico gorro atacamenho que ele veste, tecido em lã e enfeitado com pelos de lhama. Seu corpo não apresenta sinais externos da causa da morte. A lesão visível na face esquerda, onde o osso está fraturado, foi decorrente de um trauma. Os atacamenhos não tinham tradição guerreira, mas em alguns momentos lutaram e praticaram rituais violentos.

Múmia do AtacamaMúmia do Atacama – Crédito: Museu Nacional da UFRJ/Divulgação

Múmias egípcias
Dom Pedro arrematou em 1826 a maior coleção de múmias egípcias da América Latina. São múmias de adultos, crianças e também de animais, como gatos e crocodilos. A maioria das peças veio da região de Tebas.

Grande acervo de múmias naturais e artificiais do Museu NacionalGrande acervo de múmias naturais e artificiais do Museu Nacional – Crédito: Fernando Frazão/ABR

Esquife da dama Sha-Amun-Em-Su
Caixão de egípcia que viveu entre os séculos 9º a.C. e 8º a.C., foi presenteado ao imperador Dom Pedro 2º quando ele visitou o Egito em 1976. Ricamente decorado com a simbologia típica dos mitos egípcios, pertencia a uma mulher que tinha o título de cantora do santuário do deus Amun na antiga cidade de Tebas.

Detalhe do rosto do caixão de Sha-Amun-En-SuDetalhe do rosto do caixão de Sha-Amun-En-Su – Crédito: Wikipedia

Botocudos
Cerca de 30 crânios desse grupo indígena do interior de Minas Gerais e Espírito Santo, quase exterminado devido a ataques patrocinados pelo governo de Dom João 6º no começo do século 19, estavam abrigados na instituição. Uma análise de DNA publicada em 2014 sugere que ao menos alguns membros dessa etnia tinham parentesco com os habitantes da Polinésia.

Aymara
O corpo mumificado de um índio Aymara, grupo que vivia junto ao Lago de Titicaca, entre o Peru e a Bolívia. É um homem entre 30 e 40 anos, cuja cabeça foi artificialmente deformada, prática comum entre alguns povos daquela região. Os mortos Aymara eram sepultados vestidos, sentados com o queixo nos joelhos e amarrados.

Tecia-se uma cesta em torno do defunto, deixando de fora apenas as pontas dos pés e o rosto. Roupas e objetos pessoais podiam também ser colocados dentro da cesta. Não há referência ao período em que ele viveu.

Múmia Aymara de indivíduo do sexo masculinoMúmia Aymara de indivíduo do sexo masculino – Crédito: Museu Nacional/Divulgação

Tropeognathus Mesembrinus
Pterossauro (réptil voador) que viveu no Nordeste brasileiro durante a Era dos Dinossauros, pode ter medido mais de 8 metros de uma ponta à outra de suas asas. O espécime de maior porte foi estudado por pesquisadores do museu.

Outros espécimes valiosos de pterossauros também estavam na instituição, já que um dos principais especialistas do mundo nesse grupo de animais, o paleontólogo Alexander Kellner, trabalha no Museu Nacional e é seu atual diretor.

Esqueleto de pterossauro (Tupandactylus imperator)Esqueleto de pterossauro (Tupandactylus imperator) – Crédito: Wikipedia

Oxalai Quilombensis
Maior dinossauro carnívoro já descoberto no Brasil, com até 14 metros de comprimento (comparável ao célebre Tyrannosaurus rex), focinho semelhante ao de um jacaré e hábitos semiaquáticos. Oriundo do Maranhão, foi descrito por pesquisadores do museu em 2011. Fora do museu, não havia outros fósseis da espécie.

Maxakalisaurus Topai
Descrito originalmente em 2006 por pesquisadores do museu, era um dinossauro quadrúpede e herbívoro de pescoço longo, pertencente ao grupo dos titanossauros, que viveu há cerca de 80 milhões de anos e media cerca de 13 m.

Os titanossauros, cujo couro era adornado por “calombos” ósseos, eram os grandes herbívoros dominantes do Brasil durante a fase final da Era dos Dinossauros. Os fósseis da espécie foram descobertos em Prata (MG).

Réplica de esqueleto de titanossauro (Maxakalisaurus topai)Réplica de esqueleto de titanossauro (Maxakalisaurus topai) – Crédito: Wikipedia

Trono de Daomé
Bela peça em madeira, doada ao então príncipe-regente Dom João 6º em 1811, estava no acervo do museu desde 1818. O presente veio dos embaixadores do rei Adandozan de Daomé (1718-1818), que governava o território com esse nome na África Ocidental, hoje correspondente, grosso modo, à República de Benin.

Prédio histórico
O Palácio de São Cristóvão, prédio principal do museu, era ele mesmo um patrimônio de valor incalculável para a história do Brasil. Abrigou a família real portuguesa de 1808 a 1821, a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e a primeira Assembleia Constituinte do Brasil republicano de 1889 a 1891. Passou a abrigar o museu no ano seguinte e estava tombado desde 1938.

Entenda a situação do Museu Nacional
Em maio, 10 das 30 salas de exposição estavam fechadas, incluindo algumas das mais populares, como a que guarda um esqueleto de baleia jubarte e a do Maxakalisaurus topai –o dinoprata, primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil. Para reabrir a sala, interditada havia cinco meses após um ataque de cupins, o museu armou uma campanha de financiamento coletivo na internet –e arrecadou R$ 58 mil, mais do que a meta de R$ 30 mil.

A decadência do prédio já era visível para os visitantes, que pagavam R$ 8 pelo ingresso. No bicentenário, a instituição celebrou com o BNDES um contrato de R$ 21,7 milhões para investir em restauração. Havia outra negociação milionária encaminhada para bancar uma grande exposição –a expectativa era de que cinco das principais salas fossem reabertas até 2019.

Em maio, Alexandre Kellner, diretor do museu, afirmou serem necessários R$ 300 milhões, ao longo de pelo menos uma década, para executar o Plano Diretor do Museu. “A princesa Isabel brincava aqui, no jardim das princesas, que não está aberto ao público porque não tenho condições”, afirmou, em entrevista concedida em maio à Folha de S. Paulo.

Sala do Antigo Egito contendo múmias e sarcófagos

Grande acervo de múmias naturais e artificiais do Museu Nacional

Fonte – https://www.folhape.com.br/noticias/noticias/incendio-no-museu/2018/09/03/NWS,80008,70,1236,NOTICIAS,2190-VEJA-QUE-MUSEU-NACIONAL-GUARDAVA-QUANDO-PEGOU-FOGO.aspx

 

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