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Festa de Cosme e Damião é sincretismo com sabor doce

Festa de Cosme e Damião é sincretismo com sabor doce
Mãe Leu de Oxum, do terreiro Ylê Axé Oxóssi Guangoubira

Mãe Leu de Oxum, do terreiro Ylê Axé Oxóssi GuangoubiraFoto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Todo ano, a cozinheira Rogéria Amorim, 36, dedica seu tempo para embalar sacolinhas abastecidas de pirulito, chiclete, pipoca e outras guloseimas que criança nenhuma descarta. Faz parte de uma promessa feita há seis anos aos santos Cosme e Damião “para durar a vida toda”, segundo ela. A entrega dos doces na calçada movimentada da sua casa, no Centro de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, tem data certa para acontecer. É sempre no dia 27 de setembro. Dia em que o adeptos do Candomblé e da Umbanda homenageiam os santos católicosrepresentados pelos seus orixás gêmeos chamados Ibejis.

“Ano passado, distribuí os doces para 250 meninos. Foi uma festa. Quero continuar com esse número e agradecer sempre à graça alcançada”, diz a cozinheira, que divide seu tempo com os afazeres no restaurante Empório Baiano, no bairro dos Aflitos, onde trabalha há mais de um ano. Sua gratidão é por ter em casa uma das filhas que sobreviveu à gestação difícil. Promessa feita aos protetores dos gêmeos e das crianças, embasada no sincretismo religioso.

São Cosme e Damião são dois santos católicos, importantes do quarto século depois de Cristo. Na evangelização no Brasil, eles compunham a lista de grandes santos homenageados com igrejas para eles, como a de Igarassu em 1535. Mas os negros que chegavam aqui já tinham as suas religiões de matrizes africanas e, mesmo assim, eram obrigados pelos portugueses a seguirem o catolicismo”, explica o padre Josivan Sales o fato de os negros, naquela época, manterem externamente o culto aos santos, mas, no coração, estarem voltados para as divindades africanas. Não demorou a associarem os irmãos gêmeos aos seus orixás meninos. A história conta que eles eram médicos dedicados aos mais pobres, levando também a cura da alma até serem perseguidos e torturados.

“Em dias de festa para os santos, os escravos preparavam alimentações específicas, principalmente à base de doces. Depois dos ritos católicos, eles distribuíam essas guloseimas para as crianças. É um hábito do Candomblé, contudo muitas fieis de igrejas perderam essa referência e mantiveram a promessa com a distribuição de sacolinhas”, completa o padre. Além disso, os devotos da religião africana também preservaram o costume de oferecer o caruru, comida típica da tradição afro-brasileira, conhecida de “Caruru dos Santos”. Ele é um cozido de quiabo, servido com camarão, amendoim, castanha e azeite de dendê.

“O caruru é uma comida ritualística e oferecida ao orixá Ibeji. Só depois é servida para as pessoas. Uma tradição muito comum na Bahia e que em Pernambuco é seguida apenas por algumas comunidades”, diz o babalorixá Brivaldo de Xangô. Ainda segundo ele, essa é uma tradição que vem perdendo força nas ruas por conta do preconceito e da perseguição de outras pessoas. “Mas é uma festa infantil, com gente distribuindo brinquedos e fazendo a alegria dessas crianças. Muitos pais ainda proíbem seus filhos de participarem”, lamenta.

Sincretismo religioso Sincretismo religioso – Crédito: Lehi Henri/Arte FolhaPE

   Na mesa dos orixás

No livro “Santo Também Come”, o antropólogo Raul Lody lembra que o ato de comer e beber no terreiro ultrapassa a questãobiológica para estabelecer um vínculo entre o homem e seus antepassados. Sendo que toda oferenda colocada no altar tem sua intenção e significado. Uma lista de insumos que tem o dendê como um ingrediente tipicamente africano, capaz de conectar as pessoas àquele continente.

Não à toa, a cozinha de terreiro é um ambiente sagrado, onde a comida é preparada com um ritual devido. O responsável por esse trabalho é chamado de iyabassé, que até aceita o auxílio dos iniciados no Candomblé, mas não deixa de conduzir e finalizar a receita. O pai Jean, do Ylê Axé Oxóssi Guangoubira, no Pina, já participou de muitos desses momentos na cozinha e lembra que é proibido oferecer comida industrializada. “Só é permitido aquilo que vem da terra, como grãos de arroz, inhame, macaxeira, batata-doce e milho. Quando pronto, é oferecido ao orixá e depois servido para as pessoas comerem”, relata.

Dentro da nação nagô, o culto é feito para 11 orixásExú é o primeiro a comer. A lenda diz que numa festa culinária consagrada na África, em que os orixás levavam sua própria comida, Exú, por não ter preparado algo, comeu de tudo um pouco daqueles que estavam presentes. Desde então, passou a ser o primeiro a se alimentar com iguarias como o padê. “Uma espécie de farofa temperada à base de farinha de mandioca e azeite de dendê, que pode ser feita de várias maneiras, inclusive doce, à base de mel. Mas podemos preparar uma galinha desfiada e misturar com essa farofa e ainda colocar pimenta”, explica pai Jean.

Cada divindade tem sua preferência gastronômica por estarem ligadas às forças da natureza. Iemanjá, como mãe das águas, adora arroz com peixe. “É uma comida mais leve em que também pode ser oferecido milho branco com camarão e azeite ou até manjar de sobremesa. Aliás, essa é uma receita que surgiu dentro das senzalas, feita por uma africana, cujo nome é semelhante ao da divindade das águas”, completa. Já o Pai Miro lembra que Iemanjá também aprecia peixe tainha, banhado no azeite e levado rapidamente ao fogo.

Comidas de ritual 

Oxóssi – Uma entidade de caça que tem preferência no milho – que significa fartura. Pode estar em vários pratos, sejam doces ou salgados.

Ogum – Orixá guerreiro. Recebe uma comida mais forte, sendo a maioria à base de carne de porco temperada com azeite e pimenta. Pode ser servido com um pirão de fubá. Já o paliteiro é uma espécie de petisco com inhame cozido e espetado junto com a carne de porco frita no azeite de dendê.

Iansã – A senhora dos ventos e da tempestade recebe o acarajé. Feito de feijão fradinho triturado e temperado com cebola, cebolinho, azeite de dendê e coentro.

Oxum – A rainha da água doce é associada a dois pratos típicos. O ipeté é feito com inhame, azeite de oliva ou dendê, mais camarão e cebola. Já o molokun leva feijão fradinho, ovos e camarão no azeite. É processado e amassado com a própria mão e depois temperado.

Xangô – Para o orixá da justiça é oferecida uma rabada temperada com azeite, pimenta e sal. Depois de cozida é misturada ao quiabo, amedoim, castanha e camarão (sem cabeça e rabo). Também recebe o amalá, uma espécie de mingau feito com farinha da terra e água.

Fonte – https://www.folhape.com.br/diversao/diversao/sabores/2018/09/22/NWS,81954,71,513,DIVERSAO,2330-FESTA-COSME-DAMIAO-SINCRETISMO-COM-SABOR-DOCE.aspx

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